Uma sequência de rochas com mais de 3,9 bilhões de anos encontrada pelo rover Perseverance guarda um registro de quando asteroides atingiam Marte repetidamente. As camadas funcionam como uma espécie de “boletim do tempo” cósmico, preservando poeira, fragmentos e gotas de rocha derretida que caíam sobre a superfície.
As formações foram examinadas na borda da cratera Jezero, depois que o veículo da NASA deixou o interior da cratera e alcançou terrenos ainda mais antigos. Os resultados foram apresentados em um estudo publicado no Journal of Geophysical Research: Planets.
De acordo com o balanço divulgado pela NASA, os pesquisadores identificaram uma pilha de camadas com cerca de 75 metros de espessura. A região recebeu o nome informal de Broom Point.
O que as rochas de Broom Point registram
- Idade provável: mais de 3,9 bilhões de anos;
- Espessura: aproximadamente 75 metros;
- Tipos de rocha: seis grupos diferentes;
- Origem principal: sucessivos impactos de asteroides;
- Amostras coletadas: Bell Island e Main River;
- Possível influência ambiental: contato de material quente com água ou gelo.
Por que as rochas são comparadas a um boletim do tempo?

NASA/JPL-Caltech/ASU/MSSS
A comparação não significa que as amostras registraram temperaturas diárias, ventos ou chuvas comuns. Elas conservaram sinais das condições que dominavam uma região de Marte durante um período extremamente violento do Sistema Solar.
Naquela época, o que caía do céu não era necessariamente chuva ou neve. Grandes impactos arremessavam poeira, fragmentos e gotas de rocha derretida para a atmosfera. Parte desse material voltava à superfície e formava novas camadas.
Ao estudar a ordem, a composição e a espessura dessas camadas, os cientistas podem reconstruir como os eventos se repetiram. É semelhante ao trabalho de um meteorologista que compara registros sucessivos, mas realizado em uma escala de bilhões de anos.
Quais sinais indicam impactos de asteroides?

Os instrumentos do Perseverance encontraram seis tipos de rocha intercalados. Entre eles estão brechas, formadas por fragmentos angulares unidos, e camadas compostas por material fino e pulverizado.
Alguns fragmentos apresentam cavidades que teriam sido formadas por bolhas de gás. Isso indica que o material esteve derretido antes de esfriar e se transformar novamente em rocha.
Outro indício importante são pequenas esferas escuras e vítreas espalhadas pelas camadas. Erupções vulcânicas também podem formar gotas de vidro, mas a grande quantidade observada em Broom Point favorece a hipótese de impactos.
Segundo a NASA, as maiores esferas possuem dimensões comparáveis às gotas de material lançadas pelo impacto de Chicxulub, associado à extinção dos dinossauros na Terra.
A repetição das mesmas combinações de rocha ao longo dos 75 metros mostra que não houve apenas uma colisão. Diferentes asteroides teriam atingido Marte em momentos sucessivos, alguns perto da área e outros a grandes distâncias.
Água ou gelo podem ter participado do processo?
Algumas camadas se parecem com depósitos deixados por correntes rápidas e densas de detritos. Na Terra, movimentos semelhantes podem ocorrer quando material extremamente quente entra em contato com água ou gelo.
O calor transforma a água em vapor quase instantaneamente. A expansão produz uma mistura turbulenta de gases, cinzas e fragmentos, capaz de avançar rente ao solo antes de depositar o material.
Os pesquisadores consideram esse cenário possível para Broom Point, mas ele ainda não está confirmado. As texturas observadas podem ajudar a estabelecer se havia água, gelo ou outro material volátil disponível durante os impactos.
O que é uma brecha de impacto? É uma rocha formada quando uma colisão quebra materiais mais antigos em fragmentos. O calor, a pressão e os detritos do próprio impacto podem reunir novamente esses pedaços em uma nova rocha.
Dois impactos gigantes podem ter mudado a paisagem
Parte das camadas está inclinada em ângulos superiores a 80 graus, quase na vertical. A colisão que abriu a cratera Jezero não seria suficiente, sozinha, para produzir essa inclinação.
Os cientistas trabalham com uma sequência de dois grandes acontecimentos. Primeiro, um asteroide colossal teria formado a bacia de Isidis, uma depressão com aproximadamente 1.900 quilômetros de largura. O choque levantou e inclinou terrenos que antes estavam mais próximos da horizontal.
Mais tarde, outro objeto atingiu a área e formou a cratera Jezero, que possui cerca de 45 quilômetros de diâmetro. Essa segunda colisão fraturou e elevou ainda mais as rochas que já haviam sido modificadas pelo primeiro impacto.
As camadas examinadas pelo rover seriam, portanto, resultado de uma história mais antiga que a própria cratera onde ele pousou em 2021.
Por que esse registro não existe da mesma forma na Terra?
A Terra também foi atingida por muitos asteroides durante a juventude do Sistema Solar. Grande parte das provas, entretanto, desapareceu.
O movimento das placas tectônicas recicla continuamente a crosta terrestre. Rochas são deformadas, enterradas, derretidas ou destruídas, apagando parte dos capítulos mais antigos do planeta.
Marte não possui atualmente uma tectônica de placas ativa como a terrestre. Por isso, terrenos muito antigos puderam permanecer relativamente preservados. Ao investigar Marte, os cientistas também encontram pistas sobre uma fase da história da Terra que já não está registrada de maneira completa aqui.
O que pode ser descoberto com as amostras?
O Perseverance perfurou as rochas e armazenou dois núcleos chamados Bell Island e Main River. Eles continuam em Marte, protegidos em tubos especiais para uma possível missão futura de retorno à Terra.
A missão Perseverance foi projetada para estudar a habitabilidade passada do planeta e formar uma coleção de rochas e solo marcianos. Os equipamentos do rover realizam análises importantes, mas laboratórios terrestres oferecem instrumentos maiores e métodos mais precisos.
Se as amostras forem trazidas, técnicas de datação poderão indicar quando os materiais se solidificaram e quantas fases de impacto estão preservadas. Isso ajudaria a calcular a frequência das colisões no início da história marciana.
Os pesquisadores também poderiam procurar alterações provocadas por água, medir a composição das partículas derretidas e comparar os resultados com modelos sobre a formação inicial dos planetas rochosos.
A coleta não confirma a existência de vida nem significa que as rochas já chegaram à Terra. Ela preserva material considerado estratégico para futuras investigações sobre impactos, água e mudanças ambientais em Marte.
Mais informações sobre missões ao planeta estão disponíveis no programa de exploração de Marte da NASA. Outras descobertas podem ser acompanhadas na página de espaço.


