Um vídeo divulgado neste domingo (20) acrescentou um novo elemento à crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal e as investigações sobre o Banco Master. As imagens mostram o ministro Alexandre de Moraes e a esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, desembarcando de um jatinho no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.
O registro foi feito em 22 de agosto de 2025. A aeronave era um Legacy 650 de prefixo PP-NLR, operado pela Prime Aviation, empresa que aparece nas apurações sobre a estrutura de aviação ligada ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
O escritório Barci de Moraes confirmou neste domingo que contratou os serviços de táxi aéreo da Prime Aviation em determinadas ocasiões. A banca afirma, porém, que a escolha das aeronaves cabia à própria operadora e que Vorcaro nunca esteve presente nos voos realizados com integrantes do escritório.

O que exatamente aparece no vídeo?
As imagens mostram Moraes e Viviane deixando a aeronave na pista do Santos Dumont, acompanhados por seguranças. O vídeo não mostra Daniel Vorcaro no local.
De acordo com as informações publicadas neste domingo, o avião era o Legacy 650 de prefixo PP-NLR.
A identificação da matrícula é relevante porque a aeronave já havia chamado atenção de investigadores e do Congresso. Em março, a CPI do Crime Organizado do Senado aprovou requerimentos específicos para levantar informações sobre o PP-NLR.
Um dos documentos oficiais pede à Agência Nacional de Aviação Civil informações sobre ativos aeronáuticos, registros de propriedade e beneficiários finais vinculados ao avião e à Prime Aviation.
Outro requerimento aprovado determinou que a Prime Aviation enviasse ao Senado listas de passageiros, manifestos e registros de voo do PP-NLR referentes a 2025 e 2026.
Escritório confirma que contratou a Prime Aviation
A manifestação mais importante deste domingo veio do próprio escritório de Viviane Barci.
A banca confirmou que contratou serviços de táxi aéreo da Prime Aviation e que utilizou a empresa em determinadas ocasiões.
O escritório afirma que esse tipo de contratação obedece a critérios operacionais e que cabe à própria empresa de aviação escolher qual aeronave será utilizada para realizar o transporte contratado.
A nota acrescenta que Daniel Vorcaro não esteve em nenhum dos voos feitos pela Prime Aviation com integrantes da banca e que nenhuma pessoa estranha ao escritório participou das viagens.
Em alguns deslocamentos, segundo a própria manifestação, Viviane viajou acompanhada pelo marido.
A banca também afirma que não possui contrato de prestação de serviços advocatícios com a Prime Aviation e diz não ter adquirido cotas da empresa.
Por que o vídeo reacendeu discussão sobre nota anterior?
A divulgação ganhou repercussão porque, meses antes, o gabinete de Moraes havia respondido a reportagens sobre viagens em aeronaves ligadas ao universo empresarial de Vorcaro.
Na manifestação citada por veículos de imprensa, o gabinete afirmou que o ministro jamais havia viajado em avião de Daniel Vorcaro ou na companhia dele.
Procurado novamente após a divulgação do vídeo, Moraes reiterou essa versão.
A diferença entre as duas narrativas passa pela estrutura de propriedade e operação do avião. O escritório sustenta que contratou uma empresa regular de táxi aéreo e que não escolheu uma aeronave específica pertencente a Vorcaro.
Já as reportagens e documentos da investigação associam o PP-NLR e outras aeronaves à estrutura empresarial da qual Vorcaro participou.
Essa distinção é central: o vídeo comprova o uso da aeronave. Ele, sozinho, não resolve a discussão sobre quem era seu beneficiário econômico final, em que termos o voo foi pago ou se houve qualquer vantagem indevida.
Mensagens da PF colocam Vorcaro no circuito do agendamento
Outro elemento importante vem de mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular do ex-banqueiro.
Segundo material divulgado a partir da investigação, em 21 de agosto de 2025, véspera do voo registrado no vídeo, um contato ligado à operação da Prime informou a Vorcaro que o PP-NLR estava reservado para atender “Barci”.
De acordo com a reprodução publicada a partir do relatório policial, Vorcaro respondeu pedindo que o atendimento fosse mantido.
A coincidência entre a data, o prefixo da aeronave e o vídeo divulgado agora acrescenta contexto às mensagens que já estavam sob análise.
Isso não demonstra, por si só, que Vorcaro tenha pago pessoalmente pela viagem ou que o deslocamento tenha sido concedido como benefício. Essas questões dependem da análise de contratos, faturas, pagamentos e da estrutura societária envolvida.

Reportagens anteriores apontaram ao menos oito deslocamentos
O registro divulgado agora não é a primeira informação sobre viagens do casal em aeronaves ligadas à Prime.
Em março, levantamento da Folha de S.Paulo baseado em registros da Anac e dados do Departamento de Controle do Espaço Aéreo apontou ao menos oito deslocamentos associados a aeronaves da Prime Aviation ou de estruturas relacionadas entre maio e outubro de 2025.
Em sete desses casos, segundo a reportagem, foram utilizadas aeronaves operadas pela Prime. Um oitavo voo envolveu outro avião pertencente a uma estrutura empresarial relacionada a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.
O Senado passou a investigar formalmente esse núcleo. Em 11 de março de 2026, a CPI do Crime Organizado aprovou tanto a requisição de dados de propriedade do PP-NLR quanto a entrega dos manifestos de passageiros pela Prime Aviation.
Contrato de R$ 50 milhões também aparece na investigação
O uso das aeronaves ganhou peso adicional porque a Polícia Federal encontrou documentos relativos a uma proposta de novo contrato entre uma empresa ligada a Vorcaro e o escritório Barci de Moraes.
Segundo as apurações divulgadas, a minuta previa valor de até R$ 50 milhões, com parte da remuneração associada a cotas de um jatinho Legacy 650 e de um helicóptero.
O escritório de Viviane contesta essa interpretação. Afirma que a proposta não foi aceita, que o documento não foi assinado e que sua única contratação efetiva relacionada ao Master foi um contrato anterior.
Por isso, a existência da minuta não deve ser tratada como prova de que o segundo negócio foi efetivamente concluído nos termos que aparecem no documento.
O que o novo vídeo prova — e o que não prova
| O que está documentado | O que permanece em apuração |
|---|---|
| Moraes e Viviane aparecem desembarcando do PP-NLR em 22 de agosto de 2025 | Quem arcou economicamente com cada voo |
| O escritório admite ter contratado a Prime Aviation | Estrutura completa de propriedade e beneficiários econômicos envolvidos |
| A CPI requisitou dados oficiais sobre o PP-NLR e seus passageiros | Se houve benefício ou contrapartida indevida |
| Mensagens da investigação mencionam o PP-NLR reservado para “Barci” | Qual o peso jurídico das mensagens no conjunto da investigação |
| Vorcaro não aparece no vídeo | Se existiu vínculo pessoal além das relações já documentadas |
O novo registro visual fortalece a comprovação de que Moraes e Viviane efetivamente utilizaram ao menos uma das aeronaves que já apareciam nos documentos analisados por jornalistas, Polícia Federal e Senado.
Ao mesmo tempo, a imagem não demonstra sozinha prática criminosa, favorecimento, pagamento irregular ou participação direta de Vorcaro no voo.
A questão jurídica e institucional depende de algo mais amplo: identificar quem contratou e pagou cada deslocamento, como a aeronave estava estruturada societariamente, se o serviço foi prestado em condições normais de mercado e se houve alguma relação entre as viagens e interesses do Banco Master.
É essa documentação — e não apenas o vídeo — que deverá definir o peso do episódio dentro da crise que já chegou ao plenário do Supremo.


