Os trabalhadores dos Correios iniciaram uma greve por tempo indeterminado após rejeitarem a proposta apresentada pela estatal para o novo acordo coletivo. A paralisação começou às 22h de quinta-feira (10) e alcança bases sindicais em praticamente todo o país.
Até o balanço divulgado pela Federação Interestadual dos Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadoras dos Correios (Findect), 35 assembleias já haviam aprovado a greve. No Acre, a votação estava prevista para esta sexta-feira (11).
O movimento também alcança o Amazonas: o Sintect-AM aparece entre as bases que aprovaram a paralisação.
Para os consumidores, a consequência mais imediata é o risco de atrasos na coleta, triagem e entrega de correspondências e encomendas. Os Correios, porém, afirmam ter acionado um plano de contingência para reduzir os impactos e manter parte das atividades.

Plano de saúde está no centro da greve
O principal ponto de impasse é o plano de saúde dos funcionários, aposentados e dependentes.
A Findect afirma que a direção dos Correios pretende alterar a condição da empresa como mantenedora do plano. Para os sindicatos, a mudança poderia afetar o financiamento e a estabilidade da assistência médica oferecida à categoria.
Os Correios apresentam outra leitura. Segundo a empresa, a proposta inclui a manutenção da assistência à saúde e contempla 78 das 80 cláusulas do acordo coletivo vigente.
A estatal afirma ainda ter oferecido reajuste equivalente a 100% do INPC para salários e benefícios, com vigência a partir de 1º de agosto.
As divergências permaneceram mesmo depois de sucessivas rodadas de negociação e da tentativa de mediação no Tribunal Superior do Trabalho.
Negociação no TST terminou sem acordo
Os Correios haviam recorrido ao Tribunal Superior do Trabalho no fim de agosto em busca de uma mediação para o Acordo Coletivo de Trabalho 2026/2027.
Na época, a própria estatal afirmou que buscava uma solução capaz de conciliar sustentabilidade econômico-financeira, preservação de direitos e continuidade dos serviços.
Uma nova reunião mediada pelo TST ocorreu na quinta-feira, mas terminou sem entendimento sobre pontos considerados essenciais pelos trabalhadores, principalmente o plano de saúde.
As assembleias foram realizadas em seguida e confirmaram a paralisação.
Greve significa que todas as entregas vão parar?
Não necessariamente. A existência da greve não significa que todas as agências fechem ou que todas as encomendas parem automaticamente.
Os Correios informaram que ativaram um Plano de Continuidade de Negócios, com remanejamento de funcionários e reforço de atividades operacionais para tentar preservar o funcionamento da rede.
A adesão também pode variar entre estados, cidades, centros de distribuição e agências. Por isso, o impacto concreto tende a ser desigual.
- Entregas: podem apresentar atrasos conforme o nível de adesão em cada região.
- Postagens: agências abertas podem continuar recebendo objetos, mas o fluxo posterior pode sofrer impacto.
- Rastreamento: continua sendo o principal meio para acompanhar a movimentação de Sedex, PAC e outras encomendas.
- Atendimento: funcionamento presencial pode variar entre unidades.
- Serviços digitais: canais eletrônicos permanecem disponíveis mesmo durante a mobilização.
Quem aguarda documentos, medicamentos, peças, produtos vendidos por comércio eletrônico ou outras encomendas com prazo crítico deve acompanhar o rastreamento com maior frequência durante a paralisação.

Amazonas está entre as bases que aprovaram paralisação
A lista divulgada pela Findect inclui sindicatos estaduais de todas as regiões brasileiras e confirma a aprovação do movimento no Amazonas.
Até o primeiro balanço, todas as 35 assembleias já realizadas haviam decidido pela greve. Acre, Alagoas, Amazonas, Amapá, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Paraná, Rio Grande do Norte, Roraima, Rondônia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins aparecem entre as bases citadas, além de sindicatos regionais.
Esse alcance amplia a possibilidade de efeitos logísticos porque uma encomenda normalmente passa por diferentes centros de tratamento antes de chegar ao destino. Mesmo que a unidade final esteja funcionando, uma paralisação em outra etapa da rota pode aumentar o prazo.
Greve acontece em meio a prejuízo de R$ 5,55 bilhões
A paralisação começa em um momento financeiro delicado para a estatal.
Os Correios fecharam o segundo trimestre de 2026 com prejuízo líquido de R$ 2,39 bilhões. Apesar do valor elevado, houve melhora de 24,4% em relação ao primeiro trimestre, quando a perda havia chegado a R$ 3,16 bilhões.
Somados os dois períodos, o prejuízo do primeiro semestre fica próximo de R$ 5,55 bilhões.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Prejuízo no 1º trimestre | R$ 3,16 bilhões |
| Prejuízo no 2º trimestre | R$ 2,39 bilhões |
| Prejuízo aproximado no semestre | R$ 5,55 bilhões |
| Receita líquida no 1º trimestre | R$ 3,86 bilhões |
| Receita líquida no 2º trimestre | R$ 4,01 bilhões |
A estatal afirma que o resultado do segundo trimestre já mostra parte dos efeitos do plano de reestruturação. A receita líquida cresceu 3,8%, de R$ 3,86 bilhões para R$ 4,01 bilhões entre o primeiro e o segundo trimestre.
O plano envolve revisão de despesas e contratos, reorganização administrativa, medidas para aumento de receita e mudanças destinadas a reduzir os custos estruturais da empresa.
Correios já contrataram R$ 12 bilhões em crédito
Outra dimensão da crise é o endividamento. A própria empresa informa que uma operação de crédito de R$ 12 bilhões, com garantia da União, foi utilizada para reforçar a liquidez, alongar dívidas e regularizar compromissos de curto prazo.
É nesse ambiente que a direção tenta limitar despesas enquanto os sindicatos defendem a preservação de benefícios históricos.
O plano de saúde tornou-se, portanto, mais do que uma cláusula trabalhista: ele representa o conflito entre a tentativa de reduzir a pressão financeira sobre a estatal e a resistência dos empregados a uma mudança que, segundo suas entidades, poderia transferir parte maior dos custos aos trabalhadores.
O que acontece agora?
A greve não tem data definida para terminar. A Findect afirma que continua aberta à retomada das negociações e que pretende manter a mobilização até surgir uma proposta considerada suficiente pela categoria.
Os Correios, por sua vez, defendem que a oferta apresentada preserva a maior parte do acordo atual e é compatível com a situação econômica da empresa.
Se não houver entendimento direto, o conflito pode voltar ao Tribunal Superior do Trabalho e evoluir para um dissídio coletivo, mecanismo pelo qual a Justiça do Trabalho pode decidir pontos do acordo quando empresa e trabalhadores não conseguem chegar a consenso.
Para os consumidores, o ponto mais importante neste momento é acompanhar cada encomenda individualmente. A greve tem abrangência nacional, mas seus efeitos dependerão do nível de adesão e da capacidade dos Correios de manter triagem, transporte e entrega funcionando em cada rota.


