Um planeta com pelo menos duas vezes a massa de Júpiter permaneceu escondido em um dos sistemas planetários mais observados da Via Láctea. Ele não foi reconhecido inicialmente como um ponto brilhante em uma fotografia, mas pelo padrão químico deixado por sua atmosfera nos dados do telescópio James Webb.
Batizado de Beta Pictoris d, o novo exoplaneta está a aproximadamente 63 anos-luz da Terra. A descoberta foi anunciada pela NASA em 15 de julho de 2026.
Beta Pictoris já era conhecida por abrigar dois planetas gigantes, chamados Beta Pictoris b e Beta Pictoris c. O terceiro mundo torna o sistema apenas o segundo conhecido a reunir pelo menos três planetas observados diretamente.
O que se sabe sobre Beta Pictoris d

Imagem: NASA, ESA, CSA, STScI; Ciência: Aidan Gibbs (UC San Diego), Jean-Baptiste Ruffio (UC San Diego); Processamento de imagem: Alyssa Pagan (STScI)
- Distância da Terra: cerca de 63 anos-luz;
- Massa estimada: pelo menos duas vezes a de Júpiter;
- Distância da estrela: aproximadamente 30 unidades astronômicas;
- Tipo: planeta gigante gasoso;
- Moléculas identificadas: monóxido de carbono, vapor de água e metano;
- Instrumentos usados: NIRSpec, MIRI e NIRCam, do James Webb.
Por que o planeta ficou escondido?
Beta Pictoris é uma estrela jovem, com aproximadamente 23 milhões de anos. Ao seu redor existe um grande disco formado por poeira e fragmentos deixados pelo processo de formação planetária.
Esse disco é um dos mais brilhantes conhecidos. A poeira espalha a luz da estrela e funciona como uma espécie de neblina cósmica. Em imagens convencionais, estruturas do próprio disco podem ser confundidas com planetas, enquanto objetos menos luminosos desaparecem no excesso de brilho.
Beta Pictoris d está justamente nessa região difícil de observar. Apesar de ser um gigante quando comparado à Terra, ele é o menor dos três planetas conhecidos no sistema e muito menos luminoso que seus vizinhos.
O planeta não surgiu recentemente. Ele já estava presente em observações anteriores, mas sua luz permanecia misturada aos sinais produzidos pela estrela, pelos instrumentos e pelo disco de detritos.
Como o Webb encontrou sua assinatura química?

Imagem: NASA, ESA, CSA, STScI, Leah Hustak (STScI); Ciência: Aidan Gibbs (UC San Diego), Jean-Baptiste Ruffio (UC San Diego), Alexis Bidot (STScI); Processamento de imagem: Alyssa Pagan (STScI)
Os pesquisadores não estavam procurando um terceiro planeta. O objetivo original era utilizar o NIRSpec, espectrógrafo de infravermelho próximo do James Webb, para estudar a atmosfera de Beta Pictoris b.
A equipe empregou uma unidade do instrumento capaz de obter simultaneamente uma imagem e um espectro de cada parte da área observada. Em vez de registrar somente o brilho, o equipamento separa a luz em diferentes comprimentos de onda.
Durante a análise, os cientistas encontraram uma sequência inesperada de picos e quedas. Naquela região, esperava-se um espectro relativamente uniforme, produzido pela luz refletida na poeira. O padrão observado, porém, se parecia com um código de barras químico.
As marcas correspondiam principalmente à absorção causada pelo monóxido de carbono, molécula comum na atmosfera de planetas gigantes. A assinatura apareceu em uma posição onde nenhum planeta era conhecido.
O que é uma assinatura química?
Moléculas presentes em uma atmosfera absorvem partes específicas da luz. Quando os astrônomos separam essa luz em um espectro, surgem linhas ou faixas em posições características.
O monóxido de carbono absorve determinados comprimentos de onda. O metano e o vapor de água absorvem outros. A combinação desses sinais permite reconhecer quais moléculas estão presentes mesmo quando o planeta aparece apenas como uma mancha fraca.
Como o planeta foi separado da poeira
- O Webb registrou a luz de diferentes pontos do sistema;
- o NIRSpec separou essa luz por comprimento de onda;
- os pesquisadores localizaram o padrão do monóxido de carbono;
- a velocidade e a posição do sinal indicaram um objeto em órbita;
- novas observações encontraram água e metano na mesma região.
Essa técnica foi decisiva porque os grãos de poeira não produziam o mesmo conjunto de linhas moleculares. Assim, os pesquisadores conseguiram isolar a atmosfera do planeta em meio à luminosidade do disco.
Como os cientistas confirmaram que era um planeta?
A presença do monóxido de carbono foi a primeira pista forte, mas não bastava. Um ponto luminoso também poderia ser uma falha do instrumento, uma estrutura do disco ou um objeto distante alinhado por acaso com o sistema.
O espectro permitiu medir a velocidade radial, ou seja, o movimento do objeto em relação ao observador. A posição, a velocidade e o alinhamento com o disco eram compatíveis com um planeta orbitando Beta Pictoris.
Observações posteriores realizadas com o MIRI, instrumento de infravermelho médio do Webb, identificaram vapor de água e metano. Uma equipe independente também confirmou o objeto com dados da câmera NIRCam e do Very Large Telescope, instalado no Chile.
Análises de registros anteriores mostraram que o planeta já aparecia discretamente nos dados. A comparação de observações ao longo de aproximadamente 11 anos ajudou a acompanhar seu movimento e a demonstrar que ele está gravitacionalmente ligado à estrela.
Onde Beta Pictoris d está localizado?
Os modelos indicam que o planeta circula a estrela a aproximadamente 30 unidades astronômicas. Uma unidade astronômica equivale à distância média entre a Terra e o Sol.
A órbita estimada, portanto, fica em uma região comparável à ocupada por Netuno no Sistema Solar. Beta Pictoris d possui a órbita mais larga entre os três planetas conhecidos ao redor da estrela.
O objeto também está próximo da borda interna do disco de detritos. Por isso, os cientistas consideram a possibilidade de que sua gravidade ajude a explicar o formato bem definido dessa borda. A relação ainda precisa ser investigada.
Por que essa descoberta é diferente?
Planetas diretamente observados costumam ser identificados como pontos de luz separados de suas estrelas. No caso de Beta Pictoris d, a espectroscopia teve o papel principal desde o começo.
Segundo a NASA, esse é o primeiro planeta diretamente observado cuja descoberta ocorreu principalmente por meio de espectroscopia de resolução moderada. O método pode ajudar a localizar outros mundos escondidos em discos de poeira ou próximos de fontes muito brilhantes.
A descoberta também mostra que sistemas estudados por décadas ainda podem guardar objetos desconhecidos. Novos instrumentos não apenas enxergam mais longe: eles conseguem separar informações que antes estavam misturadas na mesma luz.
O arquivo de exoplanetas da NASA explica os diferentes métodos usados para descobrir e caracterizar planetas fora do Sistema Solar. As novidades e imagens produzidas pelo telescópio podem ser consultadas na área de notícias do James Webb.
Outras descobertas astronômicas podem ser acompanhadas na página de espaço. Explicações sobre fenômenos científicos também estão reunidas na seção de curiosidades.


