Crise no STF muda discurso de Lula; campanha passa a defender investigação sem blindagem

A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal e as investigações do Banco Master passou a ocupar um espaço cada vez maior na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva. O discurso do presidente sobre o episódio mudou ao longo de setembro: saiu de uma reação institucional e genérica para cobranças mais diretas sobre Alexandre de Moraes, André Mendonça e a condução das apurações.

Segundo apuração publicada neste domingo (20) pela CNN Brasil, a campanha adotou uma estratégia gradual, observando primeiro a repercussão política do caso antes de elevar o tom.

Nos primeiros dias da crise, Lula evitou citar diretamente Alexandre de Moraes. Depois, passou a defender investigação “doa a quem doer”, quebra ampla de sigilo e responsabilização de qualquer autoridade que tenha cometido irregularidades.

Presidente Lula durante ato de campanha em setembro de 2026
Lula elevou gradualmente o tom sobre a crise no Supremo ao longo de setembro — Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters

Primeira reação evitou citar Moraes

A mudança pode ser observada na sequência das declarações públicas do presidente.

Em 3 de setembro, quando a crise ganhava força, Lula publicou um vídeo defendendo que “todo mundo” fosse investigado, sem blindagem. Alexandre de Moraes não foi citado nominalmente.

O presidente afirmou que a democracia exige instituições fortes e respeitadas e defendeu mudanças mais amplas no sistema político e no Judiciário.

Um dia depois, Lula pediu que o presidente do STF, Edson Fachin, e a Procuradoria-Geral da República liderassem uma resposta institucional capaz de preservar a confiança nas investigações.

Depois, Lula passou a pedir abertura completa dos autos

A segunda etapa do discurso veio com o debate sobre os vazamentos das investigações do Banco Master.

Em 9 de setembro, Lula defendeu a quebra completa do sigilo das investigações e criticou o que classificou como vazamentos seletivos capazes de influenciar a disputa eleitoral.

Foi nesse momento que a expressão “doa a quem doer” passou a ocupar espaço recorrente na comunicação do presidente e de seus aliados.

A posição oficial passou a ser a de que todos os nomes encontrados nos documentos e mensagens do caso Master deveriam ser submetidos aos mesmos critérios de investigação.

Moraes passou a ser citado nominalmente

A mudança mais clara ocorreu nos dias seguintes.

Em entrevista ao SBT, Lula afirmou que Alexandre de Moraes deveria responder caso tivesse cometido irregularidades. O presidente aplicou o mesmo raciocínio a André Mendonça e Edson Fachin.

Ao mesmo tempo, Lula passou a tentar separar sua própria trajetória política da de Moraes.

Em entrevista concedida em 16 de setembro, lembrou que não era presidente quando Moraes foi indicado ao Supremo. O ministro foi escolhido por Michel Temer em 2017 para ocupar a vaga aberta após a morte de Teori Zavascki.

O argumento passou a ser utilizado pelo presidente para rebater a tentativa da campanha de Flávio Bolsonaro de associar diretamente sua imagem à de Moraes.

Discurso endurece contra André Mendonça

Se Lula foi gradual ao falar de Moraes, o tom contra André Mendonça se tornou mais direto.

Em entrevista à Rádio Itatiaia no dia 17, o presidente acusou Mendonça de utilizar a função de relator do caso Master para “fazer política” e promover divulgação seletiva de informações.

A afirmação representa a posição de Lula. O Supremo ainda não estabeleceu como fato que Mendonça tenha usado a relatoria com finalidade político-eleitoral.

Mendonça tem rejeitado críticas sobre sua atuação e sustenta que as decisões tomadas no caso tiveram fundamento processual.

O cuidado é relevante porque parte da crise institucional nasceu exatamente da disputa entre ministros sobre a forma como relatórios, mensagens e dados do celular de Daniel Vorcaro foram requisitados, compartilhados e divulgados.

Lula pede análise conjunta de ministros citados no caso

Na mesma entrevista do dia 17, Lula defendeu que eventuais questionamentos envolvendo integrantes do Supremo sejam examinados de forma conjunta.

Segundo o presidente, não seria adequado analisar um nome antes das eleições e outros posteriormente.

Ele citou Moraes, Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques entre os nomes que, em sua avaliação, deveriam ter eventuais vínculos analisados sob o mesmo critério.

As menções não significam que todos estejam sendo acusados dos mesmos fatos. Os procedimentos relacionados ao caso Master têm objetos, documentos e situações jurídicas diferentes.

Crise também expôs divergência sobre atuação de Flávio Dino

Outro episódio relevante ocorreu após a sessão extraordinária do STF de 15 de setembro.

O julgamento foi interrompido após Flávio Dino pedir vista quando o plenário discutia como deveriam tramitar procedimentos envolvendo Moraes e Mendonça.

Segundo relatos publicados pela Folha, Lula teria demonstrado insatisfação com o resultado da sessão e preferia que a Corte avançasse na apuração para reduzir a incerteza institucional.

A reportagem também registrou críticas do presidente ao comportamento de Dino durante o julgamento. Dino foi ministro da Justiça do governo Lula antes de ser indicado pelo presidente ao Supremo.

O episódio complicou politicamente a tentativa de tratar a crise apenas como um conflito entre magistrados indicados por governos adversários.

Datafolha mostra que maioria não mudou o voto por causa da crise

Apesar do espaço que o caso ocupa no debate político, os dados disponíveis não mostram uma migração eleitoral generalizada causada pelo episódio.

Pesquisa Datafolha realizada entre 8 e 10 de setembro mostrou que 85% dos entrevistados disseram que as acusações envolvendo Moraes não alteraram sua preferência eleitoral.

No caso das críticas dirigidas a André Mendonça, 86% disseram que também não mudaram seu voto.

O levantamento ouviu 2.002 eleitores em 125 municípios. Como a coleta terminou em 10 de setembro, a pesquisa não mede os efeitos dos acontecimentos posteriores, incluindo a sessão extraordinária do STF e novos conteúdos encontrados nos dados de Vorcaro.

MomentoPosição de Lula
3 de setembroDefende investigação sem blindagem e “doa a quem doer”
4 de setembroCobra atuação de Fachin e da PGR para preservar confiança nas investigações
9 de setembroPede quebra completa do sigilo do caso Master
15 de setembroCobra rigor do STF e critica vazamentos seletivos
16 de setembroBusca se afastar politicamente de Moraes e lembra indicação por Michel Temer
17 de setembroAcusa Mendonça de atuação política e pede análise conjunta dos envolvidos

Campanha de Flávio Bolsonaro também ajustou discurso

A crise não alterou apenas a comunicação de Lula. Flávio Bolsonaro passou a usar os episódios envolvendo Moraes e o Supremo para questionar o governo e a relação política entre integrantes da Corte e o presidente.

Ao mesmo tempo, a própria campanha de Flávio teve de recalibrar o discurso depois que documentos e mensagens passaram a mencionar outras autoridades e pessoas próximas ao campo político bolsonarista.

Reportagem recente apontou que a campanha retirou Moraes do centro de parte da propaganda televisiva e passou a enfatizar temas como segurança pública e economia.

Isso mostra que a crise do STF não opera politicamente em uma única direção: cada nova leva de documentos pode atingir atores distintos e alterar as estratégias dos candidatos.

Crise seguirá no centro da campanha enquanto STF não concluir apuração

O principal problema para as campanhas é a ausência de uma conclusão institucional.

O Supremo ainda discute o rito de procedimentos envolvendo ministros, o conteúdo integral do celular de Daniel Vorcaro segue sendo analisado e diferentes investigações relacionadas ao Banco Master continuam em andamento.

Por isso, cada novo documento pode produzir uma nova rodada de declarações políticas antes do primeiro turno.

A estratégia atual de Lula combina três movimentos: defender abertura das investigações, tentar evitar associação automática com Moraes e direcionar críticas a atuações que considera seletivas dentro do Supremo.

Esses movimentos são escolhas políticas da campanha. Se produzirão efeito eleitoral relevante é uma questão que os dados disponíveis ainda não permitem responder.

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