BepiColombo entra na reta final para desvendar os mistérios de Mercúrio em 2026

A missão BepiColombo entrou na reta final para chegar à órbita de Mercúrio em novembro de 2026 e investigar alguns dos maiores mistérios do planeta mais próximo do Sol.

Mercúrio parece simples à primeira vista: pequeno, rochoso, queimado pelo Sol e cheio de crateras. Mas, para a ciência, ele é um dos mundos mais intrigantes do Sistema Solar. Tem um núcleo enorme, um campo magnético inesperado, sinais de gelo em crateras polares e uma superfície que ainda guarda pistas sobre a formação dos planetas rochosos.

É justamente esse conjunto de perguntas que a missão BepiColombo tenta responder. A iniciativa é uma parceria entre a Agência Espacial Europeia, a ESA, e a agência espacial japonesa JAXA, com duas sondas científicas que viajaram juntas durante anos para estudar Mercúrio por ângulos diferentes.

O ponto decisivo agora é o calendário. A ESA informou que a propulsão elétrica solar da missão foi desligada definitivamente em 15 de junho de 2026, encerrando a longa fase de cruzeiro e abrindo a sequência final de chegada ao planeta.

Data-chave: a inserção orbital da BepiColombo em Mercúrio está prevista para 21 de novembro de 2026, com início das operações científicas de rotina em abril de 2027.

O que é a missão BepiColombo

BepiColombo
An artist’s impression of the ESA-JAXA BepiColombo spacecraft. ESA/ATG medialab

A BepiColombo é uma das missões planetárias mais complexas já enviadas ao Sistema Solar interno. Ela não leva apenas uma sonda, mas um conjunto formado por módulos que viajaram empilhados durante o cruzeiro até Mercúrio.

O coração científico da missão está em dois orbitadores. O primeiro é o Mercury Planetary Orbiter, ou MPO, desenvolvido pela ESA para observar a superfície, a composição, a topografia, a gravidade, a exosfera e o interior do planeta. O segundo é a sonda Mio, da JAXA, também chamada de Mercury Magnetospheric Orbiter, dedicada ao campo magnético, ao plasma, às ondas, à poeira e ao ambiente espacial ao redor de Mercúrio.

Durante a viagem, esses orbitadores seguiram acoplados ao Mercury Transfer Module, o MTM, responsável pela propulsão elétrica solar, e à estrutura MOSIF, que protegeu a Mio do ambiente térmico severo durante o trajeto.

Essa arquitetura importa porque Mercúrio não será estudado apenas como uma bola rochosa. A missão quer observar o planeta como um sistema completo: superfície, interior, campo magnético, exosfera e interação com o vento solar.

Por que Mercúrio intriga tanto os cientistas

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BepiColombo science themes

Mercúrio é o planeta mais próximo do Sol, mas essa não é a única razão para ele ser tão difícil de entender. A superfície enfrenta temperaturas extremas, com calor intenso durante o dia e frio profundo em regiões sem iluminação direta. Ao mesmo tempo, crateras próximas aos polos podem manter áreas permanentemente sombreadas, onde há indícios de gelo.

A própria ESA resume algumas das grandes perguntas: por que existe gelo em crateras polares de um planeta tão quente? Como Mercúrio ainda tem campo magnético? O que são as misteriosas depressões conhecidas como “hollows” na superfície?

Outro enigma está no interior do planeta. Mercúrio tem um núcleo metálico proporcionalmente muito grande em relação ao seu tamanho. Isso levanta hipóteses sobre como ele se formou, se perdeu parte do manto em colisões antigas ou se nasceu em uma região diferente do Sistema Solar interno.

Observar Mercúrio da Terra também é complicado. Como ele aparece sempre próximo do Sol no céu, as janelas de observação são curtas e difíceis. Por isso, uma missão orbital dedicada pode enxergar detalhes que telescópios terrestres e passagens rápidas de sondas não conseguem captar com a mesma profundidade.

A chegada de 2026 não é apenas “mais uma etapa”

A chegada de 2026 é o momento em que a BepiColombo deixa de ser uma nave em cruzeiro e começa a virar, de fato, um observatório duplo ao redor de Mercúrio. Até agora, muitos instrumentos funcionaram de forma limitada, porque as sondas estavam empilhadas e ainda não podiam operar em sua configuração final.

Segundo a factsheet da ESA, o MTM deve se separar do conjunto MPO-Mio em 3 de setembro de 2026. Depois disso, a nave seguirá para a inserção orbital em Mercúrio, prevista para 21 de novembro de 2026. A separação entre MPO e Mio está programada para 9 e 10 de dezembro de 2026, e as operações científicas devem começar em abril de 2027.

Data previstaMarco da missãoPor que importa
15 de junho de 2026Fim da propulsão elétrica solarMarca o encerramento da longa fase de cruzeiro
3 de setembro de 2026Separação do MTMO módulo de transferência é descartado antes das manobras finais
21 de novembro de 2026Inserção orbital em MercúrioA missão entra na etapa decisiva ao redor do planeta
9 e 10 de dezembro de 2026Separação de MPO e MioOs dois orbitadores passam a seguir funções científicas próprias
Abril de 2027Início da ciência de rotinaComeça a fase planejada de observações completas

Esse cronograma é importante porque algumas páginas antigas ainda citam 2025 como ano de chegada. O calendário atualizado passou a apontar novembro de 2026 depois de uma anomalia no módulo de transferência, que reduziu a potência disponível para os propulsores elétricos.

Por que a missão atrasou para novembro de 2026

A BepiColombo tinha previsão anterior de chegar à órbita de Mercúrio em dezembro de 2025. Esse plano mudou em 2024, depois que engenheiros identificaram uma anomalia elétrica no MTM, o módulo de transferência responsável pela propulsão elétrica solar durante o cruzeiro.

A JAXA explicou que a missão passou a usar uma nova trajetória, capaz de levar a nave até Mercúrio com menor potência nos motores iônicos, sem alterar os objetivos científicos depois da chegada. Com isso, a inserção orbital foi deslocada para novembro de 2026.

Na prática, o adiamento não significa fracasso. Significa que a equipe de navegação redesenhou o caminho para preservar a missão. Em exploração planetária, isso é comum: trajetórias são ajustadas, janelas são recalculadas e a nave precisa aproveitar a gravidade dos planetas para economizar energia.

Sem perda científica prevista: a JAXA informou que, apesar do atraso de cerca de um ano, os dois orbitadores devem realizar as observações científicas como planejado após a chegada.

Como a nave conseguiu chegar tão perto do Sol

Chegar a Mercúrio é contraintuitivo. Como o planeta está mais perto do Sol, pode parecer que basta “cair” em direção a ele. Mas uma nave que parte da Terra carrega muita energia orbital e precisa perder velocidade de forma controlada para não passar direto, ser puxada pelo Sol ou errar a captura.

Por isso, a BepiColombo usou uma combinação de propulsão elétrica solar e assistências gravitacionais. A ESA detalha que a missão passou por nove sobrevoos planetários: um pela Terra, dois por Vênus e seis por Mercúrio.

Essas passagens não foram turismo espacial. Cada uma serviu para ajustar a trajetória, reduzir energia e colocar a nave no caminho correto. É como usar a gravidade dos planetas como uma espécie de freio natural, economizando combustível e ganhando precisão.

O último arco de propulsão elétrica solar terminou em junho de 2026. A partir daí, a BepiColombo segue uma trajetória balística até a separação do MTM, quando o conjunto restante passa a depender da propulsão química da MPO para as manobras finais de chegada.

O que cada sonda vai investigar

A força da BepiColombo está no trabalho conjunto das duas sondas. A MPO ficará em uma órbita polar mais baixa, voltada para medições detalhadas do planeta. A Mio ficará em uma órbita polar mais alongada, ideal para estudar a magnetosfera e o ambiente espacial ao redor de Mercúrio.

De acordo com a página da Mercury Planetary Orbiter, a MPO deve operar em uma órbita de cerca de 480 por 1.500 quilômetros acima da superfície. Já a Mio deve trabalhar em uma órbita elíptica de aproximadamente 590 por 11.640 quilômetros.

OrbitadorResponsávelFoco principalO que pode revelar
MPOESASuperfície, composição, topografia, gravidade, exosfera e interiorComo Mercúrio se formou, do que é feito e como evoluiu
MioJAXACampo magnético, plasma, ondas, sódio e poeiraComo o planeta interage com o vento solar e com o ambiente espacial

A ESA lista 11 experimentos científicos na MPO, incluindo instrumentos como MERTIS, MIXS, MGNS, BELA, MORE, PHEBUS, SERENA e SIMBIO-SYS. A Mio leva cinco grupos instrumentais, entre eles magnetômetro, sensores de plasma, instrumento de ondas, imageador de sódio e detector de poeira.

Essa combinação deve permitir algo que missões anteriores não conseguiam fazer da mesma forma: medir, ao mesmo tempo, o que acontece na superfície e no ambiente espacial ao redor do planeta.

Os mistérios que a BepiColombo quer resolver

O retorno científico esperado é grande porque Mercúrio ainda tem perguntas fundamentais em aberto. A missão deve investigar origem, composição, campo magnético, geologia, exosfera, gelo polar e até testes de relatividade geral, conforme os temas científicos da ESA.

  • Origem do planeta: entender se Mercúrio se formou onde está hoje ou se sua composição aponta para uma história mais complexa.
  • Núcleo gigante: investigar por que o planeta tem um núcleo tão grande e se parte dele ainda está líquida.
  • Campo magnético: explicar como um planeta pequeno mantém um campo magnético global.
  • Gelo polar: estudar depósitos em crateras permanentemente sombreadas.
  • Hollows: analisar depressões misteriosas que podem estar ligadas à perda de materiais voláteis.
  • Exosfera: entender a origem e a dinâmica da camada extremamente tênue de partículas ao redor do planeta.
  • Magnetosfera: medir como o vento solar comprime e reorganiza o ambiente magnético de Mercúrio.

Uma das grandes vantagens é que a BepiColombo poderá comparar dados de superfície, campo magnético e partículas quase ao mesmo tempo. Se a superfície, a exosfera e a magnetosfera responderem de forma conectada, os cientistas terão um retrato muito mais completo do planeta.

O que a missão já descobriu antes mesmo da chegada

Mesmo antes da fase orbital completa, a BepiColombo já produziu ciência relevante durante os sobrevoos. Isso é importante porque mostra que a missão não ficou apenas “viajando” por oito anos; os instrumentos também foram testados e usados em condições reais.

Durante o quinto sobrevoo de Mercúrio, em dezembro de 2024, a missão obteve as primeiras observações do planeta em infravermelho médio feitas por uma espaçonave, com o instrumento MERTIS. Esse tipo de dado é valioso porque ajuda a interpretar composição mineral e temperatura da superfície.

A ESA também destacou, em uma atualização sobre um ano para a chegada, que a missão já coletou medições magnéticas de baixa altitude e registrou centenas de imagens pelas câmeras de monitoramento do MTM.

Essas imagens são úteis para divulgação, mas o salto científico maior deve vir depois da separação dos orbitadores. Em vez de fotos modestas das câmeras de monitoramento, a MPO poderá usar instrumentos dedicados para varrer a superfície em raios X, luz visível, infravermelho próximo e infravermelho térmico.

O papel da MESSENGER e por que a BepiColombo vai além

Antes da BepiColombo, a principal referência moderna sobre Mercúrio foi a missão MESSENGER, da NASA. Segundo a NASA, a sonda orbitou Mercúrio por mais de quatro anos, determinou a composição da superfície, revelou detalhes da história geológica, estudou o campo magnético interno e verificou que os depósitos polares são dominados por gelo de água.

A MESSENGER revolucionou o conhecimento sobre o planeta, mas era uma única sonda em uma órbita específica. A BepiColombo chega com outro desenho: dois orbitadores, instrumentos complementares e uma capacidade maior de relacionar o que acontece no solo com o que acontece no espaço ao redor.

Isso pode ajudar a resolver dúvidas que ficaram abertas. Por exemplo: qual é a origem exata dos voláteis nos polos? Como a exosfera é alimentada? O campo magnético nasce de que tipo de dinâmica interna? Os hollows ainda mudam com o tempo? A superfície escura de Mercúrio tem qual composição dominante?

O que Mercúrio pode ensinar sobre a Terra

Mercúrio não é um “parente distante” sem importância. Ele faz parte do grupo dos planetas rochosos, junto com Vênus, Terra e Marte. Entender sua formação ajuda a comparar diferentes caminhos de evolução planetária.

Se Mercúrio perdeu parte de seu manto, se nasceu com composição incomum ou se preservou um núcleo ativo por mais tempo do que se esperava, essas respostas afetam modelos sobre como planetas rochosos se formam perto de uma estrela.

Isso também importa para o estudo de exoplanetas. Muitos mundos descobertos fora do Sistema Solar orbitam muito perto de suas estrelas. Mercúrio, com seu calor extremo, vento solar intenso e campo magnético peculiar, funciona como um laboratório natural para entender ambientes planetários difíceis.

Em outras palavras, estudar Mercúrio não serve apenas para “conhecer melhor Mercúrio”. Serve para testar ideias sobre a origem de planetas rochosos, a sobrevivência de campos magnéticos, a presença de voláteis em regiões extremas e a relação entre estrela e planeta.

Por que essa missão interessa ao leitor brasileiro

A BepiColombo não é uma missão brasileira, mas suas descobertas entram no mesmo fluxo de conhecimento científico usado por universidades, pesquisadores, professores, estudantes e divulgadores no Brasil. Cada conjunto de dados aberto sobre Mercúrio ajuda a formar novas perguntas, aulas, pesquisas e materiais de divulgação.

Além disso, missões como essa mostram como ciência espacial depende de cooperação internacional, engenharia de precisão, matemática, física, materiais resistentes ao calor, telecomunicações e processamento de dados. São áreas que também fazem parte da formação científica e tecnológica de qualquer país que queira desenvolver inovação.

Para o público geral, o fascínio é outro: Mercúrio é pequeno, mas carrega perguntas gigantes. Ele ajuda a entender de onde vieram os planetas rochosos, como ambientes extremos funcionam e por que o Sistema Solar ainda tem tantos capítulos pouco conhecidos.

O que acontece depois da chegada

Se a sequência de chegada ocorrer como planejado, novembro e dezembro de 2026 serão meses decisivos. Primeiro, o conjunto entra na órbita de Mercúrio. Depois, a Mio se separa para assumir sua órbita de estudo da magnetosfera, enquanto a MPO continua reduzindo sua altitude até a órbita científica.

A ESA informa que a MPO deve ser baixada até sua órbita científica em março de 2027. A partir de abril, a missão entra na etapa de observações científicas de rotina.

É nesse momento que os dados mais esperados devem começar a surgir com força: mapas de composição, medições magnéticas mais precisas, estudos da exosfera, topografia detalhada, sinais de voláteis nos polos e leituras sobre a estrutura interna do planeta.

O calendário ainda pode ter ajustes operacionais, como acontece em missões espaciais complexas. Mas, até agora, a referência pública mais atual aponta para a chegada orbital em 21 de novembro de 2026 e início da ciência regular em abril de 2027.

Perguntas frequentes sobre a BepiColombo

A BepiColombo já chegou a Mercúrio?

A missão já realizou seis sobrevoos de Mercúrio, mas a chegada orbital está prevista para 21 de novembro de 2026. As operações científicas de rotina devem começar em abril de 2027, depois da separação dos orbitadores e da fase de comissionamento.

Por que a missão demora tanto para chegar?

Porque chegar a Mercúrio exige reduzir muita energia orbital. A nave usou propulsão elétrica solar e nove assistências gravitacionais para ajustar a trajetória sem gastar combustível de forma inviável.

Quantas sondas fazem parte da missão?

A missão tem dois orbitadores científicos principais: a MPO, da ESA, e a Mio, da JAXA. Durante a viagem, elas seguiram junto ao MTM, módulo de transferência que forneceu propulsão elétrica solar, e à estrutura MOSIF, que protegeu a Mio.

O que a BepiColombo pode descobrir?

A missão pode avançar no estudo do núcleo de Mercúrio, do campo magnético, da composição da superfície, da exosfera, dos depósitos polares de gelo, dos hollows e da interação do planeta com o vento solar.

Por que Mercúrio tem gelo se fica tão perto do Sol?

O gelo não fica exposto ao Sol. As evidências apontam para crateras polares permanentemente sombreadas, onde a luz solar direta praticamente não chega e as temperaturas podem permanecer muito baixas.

Um planeta pequeno com perguntas enormes

Mercúrio pode ser o menor planeta do Sistema Solar, mas a BepiColombo mostra que tamanho não define importância científica. O planeta guarda pistas sobre calor extremo, gelo em sombras permanentes, magnetismo, evolução rochosa e os primeiros capítulos da história planetária.

A chegada de 2026 deve abrir uma fase nova. Depois de anos de cruzeiro, manobras e sobrevoos, a missão finalmente poderá usar seus dois orbitadores em plena capacidade. Se tudo correr como planejado, Mercúrio deixará de ser apenas um mundo difícil de observar e passará a ser um dos laboratórios naturais mais ricos para entender como planetas rochosos nascem, mudam e sobrevivem perto de uma estrela.

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