Energia solar e eólica mudam o setor elétrico no Brasil: os números de 2026 que mostram a virada

A energia solar e a eólica já deixaram de ser promessa no Brasil: juntas, elas representaram 26,4% da geração total de eletricidade do país em 2025. Em 2026, os novos números mostram uma virada clara no setor elétrico, mas também revelam um problema que ficou impossível ignorar: o país precisa de mais rede, armazenamento e planejamento para aproveitar toda essa energia.

O avanço aparece em várias frentes. A solar cresce nos telhados, nas fazendas, nas empresas e nas grandes usinas. A eólica segue forte, principalmente no Nordeste, embora viva uma fase de desaceleração na expansão. O resultado é uma matriz elétrica mais renovável, mais descentralizada e mais complexa de operar.

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética, a solar fotovoltaica e a eólica chegaram, juntas, a 26,4% da geração de eletricidade no Brasil em 2025. É um número importante porque mostra que as duas fontes já não são complementos pequenos da matriz: elas fazem parte do centro da operação elétrica nacional.

Os números que mostram a virada

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Fonte: https://valor.globo.com

O primeiro dado forte vem do Balanço Energético Nacional 2026, da EPE. A geração solar e eólica somadas alcançou mais de um quarto da eletricidade produzida no país em 2025. No mesmo levantamento, a micro e minigeração distribuída, modelo que inclui muitos sistemas solares instalados em casas, comércios e propriedades rurais, chegou a 7% da geração total de eletricidade.

O segundo dado vem da expansão prevista para 2026. A ANEEL projetou crescimento de 9,14 GW na geração centralizada brasileira ao longo do ano, acima dos 7,40 GW adicionados em 2025.

Dentro dessa expansão, a energia solar aparece como protagonista. Levantamento publicado pela eixos, com base nos dados da ANEEL, aponta que a geração solar centralizada deve acrescentar 4,56 GW em 2026, quase metade do crescimento previsto para a matriz centralizada. A eólica, por outro lado, deve adicionar 1,44 GW, em ritmo menor que nos anos anteriores.

IndicadorNúmero recenteO que mostra
Solar + eólica na geração elétrica26,4% em 2025As duas fontes já têm peso estrutural na eletricidade do país.
Expansão centralizada prevista pela ANEEL9,14 GW em 2026O sistema segue aumentando capacidade de geração.
Solar centralizada prevista4,56 GW em 2026A solar puxa boa parte do crescimento novo.
Eólica centralizada prevista1,44 GW em 2026A fonte continua relevante, mas em ritmo menor de expansão.
Solar instalada no Brasil72,2 GW em 25 de junho de 2026A fonte já ocupa a segunda posição na matriz elétrica brasileira, atrás das hidrelétricas.

Por que a energia solar cresceu tanto?

A solar combina três fatores que explicam sua arrancada: instalação modular, queda de custo ao longo dos anos e facilidade de uso em geração distribuída. Um sistema pode ser instalado em uma casa, em um comércio, em uma fazenda ou em uma grande usina. Isso abriu espaço para consumidores comuns, empresas e investidores.

De acordo com a ABSOLAR, o Brasil chegou a 72,2 GW de capacidade instalada em energia solar em 25 de junho de 2026. A entidade também registra mais de 4,5 milhões de sistemas de geração distribuída no país, sinal de que a expansão não acontece apenas em grandes empreendimentos.

Esse crescimento tem relação direta com a conta de luz. Quando tarifas sobem, mais consumidores passam a olhar para a geração própria como forma de reduzir gastos no médio e longo prazo. A mesma lógica aparece em empresas, propriedades rurais e condomínios, que buscam previsibilidade de custo.

Mas solar não é apenas economia individual. Ela também muda a lógica do sistema elétrico, porque parte da geração passa a ocorrer perto do ponto de consumo. Isso reduz perdas em alguns contextos, mas cria desafios novos para distribuidoras e operadores, principalmente quando há muita geração em horários de sol forte e consumo menor.

A eólica segue forte, mas perdeu velocidade

A energia eólica foi uma das grandes responsáveis pela diversificação da matriz elétrica brasileira nas últimas duas décadas. O Nordeste virou o principal polo da fonte, com parques em estados como Rio Grande do Norte, Bahia, Ceará e Piauí.

Segundo dados do Boletim Anual da ABEEólica, o Brasil terminou 2024 com 1.103 usinas e 33,7 GW de potência eólica instalada. A fonte cresceu, mas passou a enfrentar um ambiente mais difícil, com menor contratação, gargalos de transmissão e cortes de geração.

A desaceleração não significa perda de importância. Pelo contrário: a eólica continua sendo uma das bases renováveis do país. O ponto é que o setor entrou em uma fase mais madura, em que não basta instalar turbinas. É preciso garantir demanda, conexão, transmissão e remuneração adequada para a energia produzida.

Esse cenário também conversa com outras mudanças tecnológicas. O avanço dos carros elétricos, dos data centers, da indústria mais eletrificada e de novos usos de energia pode ampliar a demanda no futuro. Se isso acontecer com planejamento, solar e eólica podem ganhar novo fôlego.

O gargalo agora é a rede

O Brasil aprendeu a construir usinas solares e eólicas. O novo desafio é transportar, armazenar e usar melhor essa energia. Em algumas regiões, principalmente onde há muita geração renovável concentrada, a rede nem sempre consegue absorver toda a produção disponível.

É aí que entra o curtailment, termo usado para os cortes de geração. O Operador Nacional do Sistema Elétrico explica que a restrição de geração ocorre quando é necessário preservar a segurança e a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional. Na prática, uma usina pode estar pronta para gerar, mas ser orientada a reduzir ou interromper a produção.

Atenção: o crescimento das renováveis não depende apenas de instalar mais painéis e turbinas. Sem transmissão, armazenamento e operação flexível, parte da energia limpa pode acabar sendo desperdiçada.

Esse é um sinal de maturidade do setor. Em uma fase inicial, o debate era como produzir mais energia renovável. Agora, a pergunta mudou: como usar essa energia no horário certo, no lugar certo e com segurança para todo o sistema?

Baterias entram no centro da discussão

O armazenamento virou uma peça importante porque solar e eólica são fontes variáveis. A solar produz mais durante o dia. A eólica depende do regime dos ventos. Já o consumo de energia tem picos em outros horários, muitas vezes no começo da noite, quando a geração solar cai.

Por isso, baterias, hidrelétricas flexíveis, linhas de transmissão, resposta da demanda e gestão digital da rede passam a ser tão importantes quanto novas usinas. Sem esses recursos, o sistema pode ter excesso de energia em alguns momentos e necessidade de despacho mais caro em outros.

O Ministério de Minas e Energia publicou em junho de 2026 as diretrizes para o primeiro leilão de armazenamento de energia em baterias no Brasil. A medida mostra que o país começou a tratar baterias como infraestrutura do sistema elétrico, não apenas como acessório tecnológico.

Esse tema já aparece com força no debate sobre baterias, porque armazenamento deixou de ser uma promessa distante. Ele pode ajudar a guardar energia de fontes renováveis, reduzir cortes de geração e melhorar a segurança do fornecimento.

O que essa virada muda para o consumidor?

Para o consumidor comum, a expansão de solar e eólica não significa conta de luz automaticamente mais barata. A tarifa depende de muitos fatores: geração, transmissão, distribuição, encargos, impostos, bandeiras tarifárias e contratos antigos.

Mesmo assim, a mudança importa. Uma matriz com mais renováveis pode reduzir dependência de térmicas caras em determinados momentos, diminuir emissões e criar novas oportunidades de geração própria. Também pode abrir espaço para novos modelos de negócio, como comunidades de energia, autoconsumo remoto e contratos no mercado livre para consumidores menores.

O efeito mais visível é a popularização da energia solar em telhados e pequenos negócios. Mas o impacto mais profundo acontece na estrutura do setor: o consumidor deixa de ser apenas comprador de energia e, em muitos casos, passa também a gerar parte do que consome.

Brasil tem vantagem, mas não pode se acomodar

O Brasil já parte de uma posição diferente da maioria dos países. A matriz elétrica brasileira é majoritariamente renovável, com forte participação hidrelétrica, biomassa, eólica e solar. Isso dá ao país uma vantagem na transição energética, mas também cria um desafio: modernizar um sistema que ficou mais diverso e mais descentralizado.

A virada de 2026 mostra três movimentos ao mesmo tempo. Primeiro, a solar ganhou escala e já pesa na matriz. Segundo, a eólica segue importante, mas enfrenta uma fase de ajustes. Terceiro, transmissão, baterias e operação inteligente viraram condição para o próximo salto.

Essa transformação também se conecta ao debate sobre inovação, porque o setor elétrico brasileiro não está mudando apenas pela fonte de energia. Ele muda pela forma de medir, prever, armazenar, distribuir e consumir eletricidade.

A virada do setor já começou, mas a conta ainda não fechou

Os números de 2026 mostram que energia solar e eólica já são parte central do Brasil elétrico. A questão agora não é mais saber se essas fontes vão crescer. Elas já cresceram. A pergunta é se o país vai conseguir expandir rede, armazenamento e regras de mercado na mesma velocidade.

Se conseguir, o Brasil pode usar sua vantagem renovável para atrair indústria, reduzir emissões, fortalecer segurança energética e preparar a economia para um mundo mais eletrificado. Se não conseguir, o país corre o risco de conviver com um paradoxo: muita energia limpa disponível, mas parte dela limitada por gargalos técnicos e regulatórios.

O avanço das renováveis também precisa ser lido dentro de uma conversa maior sobre clima no Brasil, consumo, infraestrutura e desenvolvimento. Solar e eólica já mostram a virada. Agora, o teste é transformar crescimento em energia bem aproveitada, confiável e acessível.

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