O clima no Brasil em 2026 já aparece na vida real: enchentes históricas, rios em seca recorde, calor extremo, queimadas gigantes, pressão na saúde e prejuízos que chegam ao bolso das famílias.
A crise climática deixou de ser uma previsão distante. No Brasil, ela já tem datas, lugares e consequências concretas. Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu a maior tragédia climática de sua história recente. Em outubro de 2024, o Rio Negro atingiu em Manaus o menor nível em 122 anos de monitoramento. Em 2025, o país registrou sete ondas de calor, chuvas intensas em capitais e seca severa ou extrema em centenas de municípios.
Isso mostra uma mudança importante: o problema não é apenas “fazer mais calor”. O que preocupa é a combinação entre calor persistente, chuva concentrada, seca prolongada, rios baixos, fogo, falhas urbanas e desigualdade social. Quando esses fatores se encontram, o evento climático vira desastre.
Segundo o INMET, 2025 foi o sétimo ano mais quente do Brasil desde 1961, com temperatura média anual de 24,56 °C, valor 0,33 °C acima da média histórica. O recorde nacional continua sendo 2024, com média de 25,02 °C.
O Cemaden também descreveu 2025 como um dos anos mais extremos das últimas décadas no país, com recordes de temperatura, chuvas intensas de alto impacto urbano e seca prolongada em centenas de municípios.
Atenção: crise climática não significa que todo lugar ficará seco ou quente o tempo inteiro. Ela aumenta a instabilidade: mais extremos, mais irregularidade, mais danos e menos margem para improviso.
O que mudou no clima brasileiro?
O Brasil sempre conviveu com períodos de seca, cheia, calor e chuva forte. A diferença é que esses eventos estão ocorrendo sobre um planeta mais aquecido e em cidades, campos e biomas mais vulneráveis.
Um sistema climático mais quente acumula mais energia. O ar aquecido retém mais vapor d’água, o que pode alimentar temporais intensos quando há condições para chuva. Ao mesmo tempo, temperaturas maiores aumentam evaporação, ressecam solos e agravam estiagens quando a chuva falha.
Na prática, isso aparece de forma desigual pelo país. A Amazônia enfrenta rios baixos, isolamento de comunidades e fumaça de queimadas. O Sul registra enchentes mais destrutivas. O Sudeste sofre com temporais urbanos, ilhas de calor e mananciais pressionados. O Cerrado sente fogo e seca. O Nordeste lida com calor, irregularidade da chuva e insegurança hídrica.
O ponto central é que o clima deixou de ser apenas uma variável ambiental. Ele afeta transporte, energia, alimentos, saúde, escola, moradia, seguros, obras públicas, agricultura e orçamento doméstico.
Quais eventos recentes mostram essa crise?
Alguns episódios ajudam a entender por que 2026 exige uma leitura mais séria do clima no Brasil. Eles não são casos isolados sem relação entre si. São sinais de um país mais exposto a extremos e ainda pouco preparado para reduzir danos.
| Data | Evento | Local | Danos e impacto |
|---|---|---|---|
| Abril e maio de 2024 | Enchentes históricas | Rio Grande do Sul | Cerca de 2,4 milhões de pessoas afetadas, 478 municípios atingidos e mais de 180 mortes |
| Outubro de 2024 | Seca recorde do Rio Negro | Manaus, Amazonas | Rio Negro chegou a 12,66 m, menor nível desde o início do monitoramento em 1902 |
| Janeiro a dezembro de 2024 | Queimadas em escala nacional | Amazônia, Cerrado, Pantanal e outros biomas | 30,8 milhões de hectares queimados, alta de 79% em relação a 2023 |
| 24 de janeiro de 2025 | Chuva extrema em São Paulo | São Paulo, SP | 125,4 mm em um único dia, terceiro maior acumulado diário desde 1961 |
| Abril de 2025 | Chuva muito acima da média | Teresópolis, RJ | 689,4 mm no mês, 548% acima da média histórica de abril |
| Fevereiro de 2025 | Calor extremo | Quaraí, RS | 43,8 °C, maior temperatura registrada no período no território nacional |
| Novembro de 2025 | Seca severa ou extrema | CE, DF, GO, MG, PI, RJ, SP e TO | Oito unidades federativas chegaram a registrar seca em 100% do território |
| Junho de 2026 | Plano de resposta climática na saúde | Brasil | Ministério da Saúde anunciou medidas do AdaptaSUS e painel nacional de calor extremo |
Essa sequência mostra que a crise climática brasileira tem muitas faces. Em alguns lugares, ela aparece como água demais. Em outros, como água de menos. Em vários, como calor acima do suportável, fumaça, perdas materiais e sobrecarga nos serviços públicos.
O que as enchentes no Rio Grande do Sul ensinaram?

As enchentes de abril e maio de 2024 no Rio Grande do Sul se tornaram um marco porque mostraram como chuva extrema, ocupação urbana, rios cheios, infraestrutura vulnerável e falhas de planejamento podem produzir uma tragédia em escala estadual.
Entre 24 de abril e 4 de maio de 2024, mais de 420 mm de chuva caíram no estado, segundo estudo do World Weather Attribution. O grupo estimou que a mudança climática tornou esse tipo de chuva extrema cerca de duas vezes mais provável, com influência adicional do El Niño e agravamento por vulnerabilidades de infraestrutura.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico classificou o episódio como o maior desastre natural da história do Rio Grande do Sul. O evento afetou cerca de 2,4 milhões de pessoas em 478 municípios e causou 183 mortes, segundo estudo citado pela ANA.
O desastre atingiu cidades como Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo, Eldorado do Sul, Roca Sales, Cruzeiro do Sul e dezenas de municípios dos vales. Casas ficaram submersas, pontes foram danificadas, estradas foram bloqueadas, escolas fecharam, hospitais precisaram reorganizar atendimento e milhares de pessoas tiveram de deixar suas residências.
Um estudo publicado na Nature analisou o evento e apontou que as enchentes deslocaram cerca de 600 mil pessoas e causaram mais de 180 mortes. O artigo também reforça que o episódio foi raro mesmo no clima atual, com tempo de retorno superior a 100 anos, mas ficou mais provável sob influência da mudança climática e do El Niño.
A lição é dura: não basta reconstruir igual. Em um clima mais extremo, reconstrução precisa considerar cotas de inundação, drenagem, moradia segura, zonas de risco, sistemas de alerta e planos de evacuação. Caso contrário, a próxima chuva extrema encontrará os mesmos pontos frágeis.
Por que a seca na Amazônia virou alerta nacional?

A seca amazônica de 2023 e 2024 mostrou que a crise climática não afeta apenas áreas urbanas do Sul e do Sudeste. Ela atinge também rios, comunidades ribeirinhas, transporte fluvial, pesca, abastecimento, saúde e biodiversidade.
Em 4 de outubro de 2024, o Serviço Geológico do Brasil informou que o Rio Negro, em Manaus, chegou a 12,66 m, a menor marca desde o início do monitoramento em 1902. O recorde anterior havia sido registrado em outubro de 2023, com 12,70 m.
Esse dado não é apenas hidrológico. Quando o rio baixa demais, barcos encalham, comunidades ficam isoladas, alimentos e remédios demoram a chegar, escolas enfrentam interrupções e o custo de deslocamento sobe. Na Amazônia, rio é estrada, mercado, escola, hospital e conexão social.
O World Weather Attribution analisou a seca amazônica de 2023 e concluiu que a mudança climática foi o principal fator por trás da severidade do evento, tornando a seca muito mais provável em razão do aumento de temperatura e da maior evaporação. O El Niño contribuiu para a redução de chuvas, mas o aquecimento global intensificou o déficit hídrico.
Em 2026, a preocupação continua porque a região vinha de dois anos muito difíceis. Mesmo quando a previsão aponta uma estiagem mais moderada em parte da bacia, a vulnerabilidade acumulada permanece: solos ressecados, florestas sob pressão, comunidades afetadas e risco de fogo elevado em períodos de calor e baixa umidade.
Como as queimadas de 2024 entraram nessa conta?
As queimadas de 2024 mostraram o outro lado da seca: quando a vegetação perde umidade, o fogo se espalha com mais facilidade. E, no Brasil, o fogo raramente é apenas natural. Ele se combina com desmatamento, manejo inadequado, expansão agropecuária, grilagem, crime ambiental e fiscalização insuficiente.
Segundo o MapBiomas, mais de 30,8 milhões de hectares foram queimados no Brasil entre janeiro e dezembro de 2024, uma área maior que o território da Itália. O total representou aumento de 79% em relação a 2023.
No Cerrado, foram 9,7 milhões de hectares queimados em 2024, sendo 85% em áreas de vegetação nativa. No Pantanal, 1,9 milhão de hectares foram afetados pelo fogo entre janeiro e dezembro, com ápice em agosto, quando 648.796 hectares queimaram no bioma.
Amazônia, Cerrado e Pantanal têm papéis diferentes, mas todos são estratégicos. A Amazônia regula umidade e armazena carbono. O Cerrado protege nascentes e abastece bacias importantes. O Pantanal depende de ciclos de cheia e seca que ficam mais perigosos quando o fogo avança fora de controle.
O dano das queimadas não termina quando a chama apaga. A fumaça piora doenças respiratórias, o solo perde proteção, animais morrem ou perdem habitat, áreas queimadas ficam mais vulneráveis a novas queimadas e o carbono liberado reforça o aquecimento global.
O que aconteceu com o calor em 2025?
O calor extremo ganhou força como problema de saúde pública, energia e trabalho. Segundo o Cemaden, o Brasil registrou sete ondas de calor ao longo de 2025. Em fevereiro, Quaraí, no Rio Grande do Sul, alcançou 43,8 °C, a maior temperatura registrada no período no território nacional.
Capitais também tiveram marcas fortes. O Rio de Janeiro registrou máximas entre 42 °C e 44 °C em 2025, enquanto São Paulo atingiu 37,2 °C em dezembro, o maior valor para o mês em 64 anos, segundo o relatório anual divulgado pelo Cemaden.
Esses números têm efeito real. Dias muito quentes aumentam o consumo de energia, sobrecarregam transporte público, reduzem produtividade, elevam risco para trabalhadores ao ar livre e agravam problemas de saúde em idosos, crianças, gestantes e pessoas com doenças crônicas.
Esse tema já aparece com força nas cidades brasileiras. Bairros com pouco verde, muito asfalto e moradias mal ventiladas sofrem mais. Por isso, a discussão sobre calor extremo nas cidades precisa sair do campo da curiosidade e entrar no planejamento urbano.
O calor também revela desigualdade. Quem tem casa ventilada, sombra, água, ar-condicionado e trabalho em ambiente protegido sente menos. Quem mora em área densa, trabalha no sol ou depende de transporte lotado sente mais.
Por que chuva extrema não é só “tempo ruim”?
Chuva extrema vira desastre quando cai sobre uma cidade despreparada. O problema não é apenas o volume de água, mas o encontro entre precipitação intensa, ocupação de encostas, rios canalizados, lixo em drenagem, solo impermeável e moradia vulnerável.
Em 24 de janeiro de 2025, a cidade de São Paulo registrou 125,4 mm em um único dia, o terceiro maior acumulado diário desde o início das medições em 1961, segundo o Cemaden. Esse tipo de chuva em poucas horas pode travar transporte, alagar vias, interromper energia e colocar moradores em risco.
Em abril de 2025, Teresópolis, no Rio de Janeiro, acumulou 689,4 mm de precipitação no mês, volume 548% acima da média histórica de abril. Em áreas serranas, chuva intensa aumenta o risco de deslizamentos porque o solo encharcado perde estabilidade.
No Rio Grande do Sul, eventos de chuva em junho de 2025 afetaram mais de 120 municípios, provocando alagamentos, transbordamentos de rios e deslocamento de famílias, segundo o Cemaden.
Esses exemplos mostram por que alertas precisam ser específicos. Não basta dizer “vai chover forte”. A população precisa saber horário provável, bairros mais vulneráveis, rios em risco, rotas de fuga e quais ações tomar antes que a água suba.
Como a seca de 2025 pressionou água e energia?
Enquanto algumas regiões enfrentavam chuva extrema, outras lidavam com estiagem prolongada. O Cemaden informou que, ao longo de 2025, até 503 municípios chegaram à condição de seca severa ou extrema.
Em novembro de 2025, oito unidades federativas registraram seca em 100% do território: Ceará, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, São Paulo e Tocantins. Em algumas áreas, o déficit hídrico persistiu por até dez meses consecutivos.
O Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, encerrou 2025 com apenas 20,2% do volume útil armazenado, o pior nível desde a crise hídrica de 2014 e 2015, segundo o relatório do Cemaden.
Quando reservatórios caem, o problema passa da torneira para a conta de luz, a agricultura e a indústria. O Brasil ainda depende bastante de hidrelétricas. Se a água fica escassa, o sistema elétrico pode precisar acionar fontes mais caras, o que pressiona tarifas e contribui para o custo de vida.
É por isso que clima e inflação se conversam. Uma seca pode reduzir safra, encarecer alimento, limitar transporte fluvial e pressionar energia. Para entender essa relação no bolso, vale acompanhar também a discussão sobre inflação em 2026.
Qual é o impacto na saúde pública?
A saúde é uma das áreas em que a crise climática aparece com mais clareza. Calor extremo aumenta risco de desidratação, piora doenças cardiovasculares e respiratórias, eleva internações e afeta principalmente idosos, crianças e pessoas em situação de vulnerabilidade.
Em junho de 2026, a Fiocruz divulgou estudo indicando que o Brasil registrou cerca de 120 mil mortes associadas a ondas de calor entre 2000 e 2019. A pesquisa também apontou efeitos mais fortes entre idosos, mulheres e pessoas com menor escolaridade.
Enchentes criam outro conjunto de riscos. Água contaminada pode favorecer leptospirose, diarreias e infecções. Abrigos lotados aumentam risco de doenças respiratórias. A perda de casa, documentos, renda e rotina gera sofrimento mental que pode durar meses ou anos.
Secas e queimadas pioram a qualidade do ar. Fumaça fina entra nos pulmões, agrava asma, bronquite e doenças cardiovasculares. Em crianças e idosos, o efeito pode ser mais grave.
Também há impacto sobre arboviroses. Temperatura, chuva irregular, água parada e urbanização favorecem o mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue, chikungunya e zika. O clima não explica tudo, mas cria condições para surtos mais difíceis de controlar.
Em 30 de junho de 2026, o Ministério da Saúde anunciou um conjunto de medidas para preparar o SUS para o El Niño 2026-2027 e para mudanças climáticas, dentro do programa AdaptaSUS. Segundo a Agência Brasil, o plano prevê R$ 9,8 bilhões até 2035.
O que muda nas cidades brasileiras?
As cidades estão no centro da crise porque concentram população, concreto, infraestrutura antiga e desigualdade. Quando uma chuva forte cai sobre área impermeabilizada, a água escoa rápido demais. Quando o calor bate em bairros sem árvores, a temperatura percebida aumenta. Quando famílias vivem em encostas ou margens de rios, o risco vira cotidiano.
Uma cidade mais preparada precisa fazer o básico bem feito: mapear áreas de risco, limpar e ampliar drenagem, conter encostas, preservar margens de rios, criar parques lineares, arborizar bairros quentes, reduzir ocupação irregular e manter Defesa Civil ativa.
O problema é que muitas dessas ações não aparecem em inauguração bonita. Limpar bueiro, fiscalizar encosta, atualizar mapa de risco e recuperar área permeável são medidas pouco vistosas, mas podem salvar vidas.
O Cemaden registrou 2.505 alertas de risco geo-hidrológico enviados em 2025 para 1.133 municípios monitorados. No mesmo ano, foram 1.493 ocorrências associadas a eventos hidrológicos e geológicos, com predominância de inundações, enxurradas e deslizamentos.
Esses números mostram que o alerta já faz parte da rotina brasileira. O desafio é transformar alerta em ação: sirene que funciona, rota de fuga conhecida, abrigo preparado, comunicação clara e resposta rápida.
Como o desmatamento entra nessa conta?
No Brasil, clima e desmatamento não podem ser tratados como assuntos separados. A perda de vegetação nativa reduz armazenamento de carbono, altera umidade, fragiliza solos, aumenta risco de fogo e prejudica a biodiversidade.
O MapBiomas informou que o Brasil desmatou 984.794 hectares em 2025, queda de 20,6% em relação a 2024 e primeiro resultado abaixo de 1 milhão de hectares desde 2019. É um avanço importante.
Mas o mesmo levantamento mostra que o país perdeu 10.913.064 hectares de vegetação nativa nos últimos sete anos, área superior ao estado de Pernambuco. Ou seja: a queda recente não apaga o tamanho do problema acumulado.
Na Amazônia, o desmatamento reduz a resiliência da floresta e afeta a circulação de umidade. No Cerrado, a perda de vegetação compromete nascentes e rios. No Pantanal, a degradação aumenta a vulnerabilidade ao fogo. Na Mata Atlântica, fragmentos pequenos ficam mais expostos a calor, seca e perda de biodiversidade.
Proteger biomas não é apenas uma pauta ambiental. É política de água, energia, agricultura, saúde e segurança climática.
Quais setores econômicos já sentem o impacto?
A crise climática já atinge setores econômicos de forma direta. No campo, seca e chuva fora de hora alteram plantio, colheita, produtividade e logística. Em cidades, enchentes danificam comércio, estoque, transporte e infraestrutura. Na energia, reservatórios baixos podem encarecer operação. Na saúde, eventos extremos aumentam custos de atendimento.
O agronegócio é especialmente sensível porque depende de previsibilidade. Uma janela de plantio perdida pode reduzir produtividade. Uma chuva forte na colheita pode estragar grãos. Uma seca prolongada pode afetar pastagem, rebanho e irrigação.
Pequenos produtores sentem mais porque têm menos acesso a seguro, crédito, irrigação e tecnologia. Em muitos municípios, uma safra ruim não afeta apenas a fazenda: reduz renda local, consumo no comércio e arrecadação municipal.
No turismo, praias, serras, rios e parques também sofrem. Enchentes afastam visitantes, queimadas prejudicam paisagens e fumaça reduz qualidade da experiência. Na Amazônia, rios baixos dificultam deslocamento e afetam atividades ribeirinhas.
O impacto econômico, portanto, não aparece só no número final do PIB. Ele aparece em escola fechada, estrada interrompida, alimento mais caro, conta de luz pressionada, consulta médica adiada e família endividada após perder móveis em uma enchente.
O que o Brasil está fazendo em 2026?
Em 2026, o Brasil tenta organizar uma resposta mais estruturada. O governo federal publicou documentos do Plano Clima Adaptação, com diretrizes para reduzir vulnerabilidades em áreas como cidades, saúde, agricultura, recursos hídricos, infraestrutura e gestão de riscos.
Na saúde, o Ministério da Saúde anunciou a ampliação da Força Nacional do SUS e informou que o país passa a contar com uma Sala de Situação Nacional de Emergências Climáticas em Saúde e um Painel Nacional de Calor Extremo e Equidade em Saúde. Segundo o Ministério da Saúde, a ferramenta fornece previsões diárias de risco climático para todos os municípios brasileiros.
Na área ambiental, o país também apresentou nova meta climática internacional, conhecida como NDC, com compromisso de reduzir emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035. O desafio é transformar meta em execução: reduzir desmatamento, melhorar transporte, ampliar eficiência energética, adaptar cidades e proteger populações vulneráveis.
O Brasil tem capacidade científica e instituições importantes, como INMET, Cemaden, INPE, ANA, SGB, Fiocruz e universidades. O problema é transformar conhecimento em política pública permanente, com orçamento, fiscalização e continuidade.
O que falta fazer com urgência?
O país precisa parar de tratar desastre como surpresa. Muitos danos são previsíveis quando se cruzam mapa de risco, ocupação irregular, histórico de chuva, vulnerabilidade social e falta de manutenção.
As prioridades mais urgentes passam por prevenção. Isso inclui retirar famílias de áreas de risco extremo, manter drenagem, fiscalizar encostas, ampliar alertas, proteger mananciais, reduzir desmatamento e preparar o SUS para calor, fumaça, enchentes e doenças transmitidas por vetores.
- Mapeamento de risco: identificar encostas, margens de rios, áreas alagáveis e bairros com ilhas de calor.
- Obras de adaptação: drenagem, contenção, habitação segura, parques lineares e infraestrutura resistente.
- Alertas que chegam à população: mensagens simples, geolocalizadas e com orientação de ação.
- Saúde preparada: planos para calor extremo, fumaça, enchentes, leptospirose, dengue e saúde mental.
- Proteção de biomas: menos desmatamento, recuperação de áreas degradadas e combate ao fogo ilegal.
- Orçamento climático: adaptação precisa aparecer em obras, compras públicas e planejamento municipal.
O custo de prevenir pode parecer alto, mas o custo de reconstruir depois costuma ser maior. O Rio Grande do Sul mostrou isso com força: quando a água toma cidades inteiras, o prejuízo não é apenas material. É humano, psicológico, econômico e histórico.
Como a população pode se proteger no dia a dia?
A responsabilidade principal é do poder público e dos grandes setores econômicos, mas a população também pode reduzir riscos imediatos. Em períodos de chuva forte, calor extremo, fumaça ou seca, pequenas ações fazem diferença.
- Antes de chuva intensa: acompanhe alertas oficiais, evite áreas alagáveis, limpe calhas e não descarte lixo em bueiros.
- Durante enchente: não atravesse correnteza, desligue energia se houver risco seguro para isso e procure abrigo elevado.
- Em área de encosta: observe rachaduras, portas emperrando, árvores inclinadas e água barrenta descendo pelo terreno.
- Durante calor extremo: hidrate-se, evite esforço no horário mais quente, proteja idosos e crianças e busque locais ventilados.
- Com fumaça ou baixa umidade: reduza exposição ao ar livre e procure atendimento se houver falta de ar persistente.
- No bairro: cobre drenagem, arborização, limpeza urbana, plano de emergência e atualização de áreas de risco.
Essas ações não resolvem a crise climática, mas reduzem vulnerabilidade. Em um país com extremos mais frequentes, informação prática também é proteção.
Perguntas naturais sobre clima e crise climática no Brasil
O clima no Brasil está mesmo mudando?
Sim. Séries históricas do INMET mostram anos recentes entre os mais quentes desde 1961, e relatórios do Cemaden registram aumento de extremos como ondas de calor, chuvas intensas, secas prolongadas e impactos geo-hidrológicos.
Todo evento extremo é causado pela crise climática?
Não de forma isolada. Cada evento depende de fatores meteorológicos próprios. Porém, o aquecimento global aumenta a probabilidade e a intensidade de muitos extremos, criando um ambiente mais favorável a calor intenso, secas severas e chuvas concentradas.
Por que as enchentes no Rio Grande do Sul viraram símbolo da crise?
Porque mostraram a combinação entre chuva extrema, rios cheios, ocupação vulnerável e infraestrutura insuficiente. O desastre afetou cerca de 2,4 milhões de pessoas em 478 municípios e causou mais de 180 mortes.
O que a seca do Rio Negro mostra sobre a Amazônia?
Mostra que a crise climática também atinge a logística e a vida social da floresta. Quando o rio baixa demais, comunidades ficam isoladas, barcos encalham, alimentos e remédios demoram e a economia local sofre.
Como o calor extremo afeta a saúde?
Ele aumenta risco de desidratação, doenças cardiovasculares, problemas respiratórios e internações. Estudo da Fiocruz estimou cerca de 120 mil mortes associadas a ondas de calor no Brasil entre 2000 e 2019.
O que as cidades precisam fazer primeiro?
Mapear áreas de risco, melhorar drenagem, conter encostas, ampliar arborização, retirar famílias de risco extremo, fortalecer alertas e integrar Defesa Civil, saúde, assistência social e planejamento urbano.
Por que 2026 exige uma resposta mais séria?
O Brasil chega a 2026 com uma sequência de alertas difíceis de ignorar: enchentes históricas no Sul, seca recorde na Amazônia, queimadas gigantes, ondas de calor, mananciais pressionados e impacto crescente na saúde pública.
A diferença entre um evento climático e um desastre está, muitas vezes, na preparação. Chuva forte vira tragédia quando encontra cidade vulnerável. Seca vira colapso quando não há gestão de água. Calor vira emergência quando não há sombra, saúde preventiva e proteção social.
A crise climática brasileira não é uma história única. Ela é um conjunto de acontecimentos que se repetem em regiões diferentes, com danos diferentes, mas com a mesma mensagem: o país precisa se adaptar mais rápido.
Reduzir emissões, proteger biomas, combater desmatamento, preparar o SUS, adaptar cidades, melhorar alertas e proteger quem mora em área de risco não são tarefas separadas. São partes da mesma resposta.
O clima já mudou a rotina do Brasil. A pergunta agora é se o país vai continuar apenas reconstruindo depois dos desastres ou se vai começar a prevenir antes que eles aconteçam.


