Pesquisas que pareciam absurdas mudaram internet, medicina e inteligência artificial

Estudos sobre comportamento de abelhas, bactérias em fontes termais e campos elétricos aplicados a bactérias comuns podem parecer estranhos à primeira vista. Mas essas pesquisas curiosas resultaram em tecnologias que você usa todos os dias: algoritmos que mantêm a internet funcionando, testes de PCR que diagnosticaram a covid-19 e quimioterápicos que salvam milhões de vidas.

O Prêmio Ganso de Ouro (Golden Goose Award), criado nos Estados Unidos para destacar “pesquisas aparentemente obscuras que resultaram em grandes avanços”, celebra há mais de uma década esses casos de ciência básica que transformaram o mundo, conforme levantamento da BBC Brasil.

Abelhas que salvaram a internet

Abelhas que salvaram a internet

Nos anos 1980, pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Geórgia queriam entender como abelhas conseguem coletar néctar de milhões de flores de forma eficiente, sem que haja uma líder comandando o grupo.

O experimento envolveu transportar 4 mil abelhas, cada uma identificada com números e cores diferentes, até uma estação de pesquisa equipada com fontes artificiais de néctar. O objetivo era observar se o modelo desenvolvido pelos pesquisadores correspondia ao comportamento real dos insetos.

A resposta estava na chamada “sabedoria da colmeia”, explica Tom Seeley, biólogo da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. As abelhas evoluíram para prosperar em ambientes incertos, distribuindo tarefas de forma descentralizada.

Décadas depois, após os ataques de 11 de setembro de 2001, o engenheiro Sunil Nakrani aplicou esse algoritmo das abelhas ao mundo digital. O sistema ajuda servidores a lidar com picos repentinos de acesso e evita que sites travem quando milhões de usuários tentam acessá-los simultaneamente.

Em 2016, esse estudo recebeu o Prêmio Ganso de Ouro.

Bactérias de Yellowstone que criaram os testes de PCR

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Parque Nacional de Yellowstone

Na década de 1960, o microbiologista Thomas Brock e seu assistente Hudson Freeze foram ao Parque Nacional de Yellowstone estudar algo que parecia excêntrico: a lama esverdeada das fontes de água quente.

Eles descobriram uma bactéria chamada Thermus aquaticus, capaz de sobreviver em temperaturas extremamente altas. “Nem sequer estava pensando em aplicações industriais”, reconheceria Brock anos depois. Era pura curiosidade científica.

Décadas mais tarde, o bioquímico Kary Mullis percebeu que uma enzima produzida por essa bactéria — a Taq polimerase — resistia ao calor intenso exigido pela técnica conhecida como PCR (reação em cadeia da polimerase), que permite multiplicar rapidamente grandes quantidades de fragmentos de DNA.

Talvez você não reconheça o nome da técnica, mas certamente conhece uma de suas aplicações: os testes de PCR que permitiram diagnosticar a covid-19 em escala mundial. Muito antes da pandemia, a técnica já era indispensável na medicina, na genética e na ciência forense, tornando possível identificar criminosos ou inocentar suspeitos a partir de quantidades mínimas de material genético.

Um dos meus exemplos favoritos é o de uma indústria inteira de biotecnologia que surgiu porque dois cientistas queriam entender por que certas bactérias conseguem sobreviver em fontes termais

Joanne Padrón Carney, da AAAS

Câncer testicular: de 10% para 90% de cura

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Em meados da década de 1960, o biofísico Barnett Rosenberg e seus colegas faziam um experimento para entender como campos elétricos afetavam a bactéria Escherichia coli (E. coli).

Motivo: Rosenberg havia notado que células em divisão formavam um padrão semelhante ao das limalhas de ferro ao redor de um ímã, uma imagem clássica dos livros de física.

Mas algo inesperado aconteceu. As bactérias pararam de se dividir e passaram a crescer de forma alongada e incomum. A equipe concluiu que o campo elétrico era o responsável. Estava errada.

Na verdade, os eletrodos de platina usados no experimento liberavam pequenas quantidades de compostos desse metal, e eram eles que impediam a multiplicação das células.

Essa observação, que quase foi descartada, levou ao desenvolvimento da cisplatina, um dos quimioterápicos mais importantes da história, aprovado em 1978.

Antes dela, a taxa de sobrevivência ao câncer de testículo era de cerca de 10%. Com a cisplatina, esse índice passou de 90%.

A base da inteligência artificial

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Na década de 1970, cientistas como Geoffrey Hinton, James McClelland e David Rumelhart iniciaram um estudo movido por uma curiosidade simples: encontrar um modelo alternativo que explicasse de forma mais completa como funcionam os processos cognitivos no cérebro humano.

“Na década de 1970, alguns cientistas desenvolveram uma forma de modelar redes neurais. Mais tarde, outros pesquisadores usaram essa estrutura para compreender melhor a cognição e o funcionamento do cérebro. Esse trabalho acabaria servindo de base para o que hoje chamamos de IA”, afirma Joanne Padrón Carney, da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS).

Essa pesquisa básica acabaria lançando as bases da revolução do aprendizado de máquina e da inteligência artificial que vemos hoje.

“Um dos cientistas que homenageamos com o Prêmio Ganso de Ouro, Geoffrey Hinton, ganhou o Prêmio Nobel naquele mesmo ano [2024]. Foram necessárias décadas até que o valor de sua pesquisa fosse plenamente reconhecido”, destaca Carney.

O valor da ciência básica

O Prêmio Ganso de Ouro foi criado em resposta a críticas frequentes a pesquisas financiadas com recursos públicos federais nos Estados Unidos. Durante anos, estudos que pareciam estranhos ou obscuros eram facilmente ridicularizados.

“O Prêmio Ganso de Ouro reconhece oficialmente cientistas financiados com recursos federais cuja pesquisa básica levou a inovações ou invenções que beneficiaram a sociedade”, explica o site oficial da premiação.

A mensagem é clara: investir em pesquisa básica movida por curiosidade pode parecer desperdício no curto prazo, mas frequentemente resulta em descobertas que transformam completamente a ciência, a medicina e a tecnologia.

As quatro pesquisas destacadas mostram que, muitas vezes, as maiores inovações surgem quando cientistas seguem sua curiosidade sem saber exatamente onde ela vai levá-los.

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