O governo federal ampliou a ofensiva contra as apostas online e informou a derrubada de 506 sites com indícios de oferta irregular de bets no Brasil. A operação ocorre poucos dias depois da publicação da medida provisória que proibiu a exploração e a publicidade das apostas de quota fixa no país.
A ação é executada por uma força-tarefa dos ministérios da Justiça e Segurança Pública e da Fazenda e não se limita aos endereços tradicionais de apostas. O monitoramento já alcança anúncios em mecanismos de busca, redes sociais, aplicativos e grupos fechados usados para direcionar usuários a plataformas.
Além dos 506 sites, o governo identificou uma rede de 43 canais e grupos no Telegram com 212.634 membros.
O levantamento também encontrou aproximadamente 1.960 anúncios de apostas no Google, relacionados a sete domínios e exibidos no Brasil entre 25 e 27 de setembro.

Como o governo chegou aos 506 sites?
A lista foi produzida por uma força-tarefa envolvendo a Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda, e estruturas do Ministério da Justiça, entre elas a Secretaria Nacional de Segurança Pública, a Secretaria Nacional do Consumidor e a Secretaria Nacional de Direitos Digitais.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o objetivo é interromper o acesso a plataformas que estejam oferecendo apostas irregularmente e impedir a abertura de novos endereços destinados ao público brasileiro.
O comunicado oficial classifica os 506 endereços como sites “com indícios de oferta irregular”. Isso significa que o número representa os alvos identificados e retirados do ar pela força-tarefa, e não necessariamente 506 decisões judiciais ou administrativas definitivas sobre ilegalidade.
A fiscalização tende a ser contínua porque um mesmo operador pode mudar de domínio, utilizar páginas intermediárias ou recorrer a links mascarados para voltar a alcançar apostadores.
Google tinha cerca de 1.960 anúncios ligados a sete domínios
O Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) também analisou a publicidade de apostas exibida ao público brasileiro.
No Google, foram encontrados cerca de 1.960 anúncios referentes a sete domínios entre os dias 25 e 27 de setembro.
Entre as mensagens encontradas estavam chamadas para depósito, abertura de contas e jogos online.
Há, porém, uma limitação importante: a ferramenta de transparência utilizada no levantamento informa quando um anúncio foi exibido pela última vez, mas não necessariamente a data em que sua veiculação começou.
Por isso, o próprio governo afirma que não conseguiu separar, dentro dos aproximadamente 1.960 anúncios, quais surgiram depois da proibição e quais já existiam anteriormente e ainda estavam cobertos pelo período de transição.
Meta tinha anúncios iniciados depois da nova regra
Na Meta, responsável por Facebook e Instagram, o levantamento conseguiu detalhar sete anúncios individualmente.
Dois deles começaram a circular em 25 de setembro, data em que a medida provisória já estava vigente. O relatório trata esses conteúdos como material novo e, em tese, incompatível com a proibição desde o início da veiculação.
Outros cinco anúncios já estavam ativos antes da edição da MP e continuaram circulando posteriormente.
Nesses casos, a situação é diferente porque a legislação estabeleceu prazo de dez dias para a retirada da publicidade que já estava em circulação. O período termina em 5 de outubro.
O Ciberlab também encontrou anúncios em que o nome da página não correspondia à marca exibida e o domínio usado no link era diferente da empresa anunciada.
Segundo o relatório, esse padrão pode indicar tentativa de esconder o anunciante real ou o destino do tráfego.
Rede no Telegram reúne 212.634 membros
A fiscalização encontrou outro desafio fora dos sites tradicionais: grupos fechados e canais de mensagens.
O Ciberlab mapeou 43 canais e grupos ativos no Telegram relacionados à divulgação de apostas e jogos de cassino online.
Juntos, eles acumulavam 212.634 membros.
Nove canais tinham mais de 10 mil participantes e, sozinhos, concentravam 172.359 usuários, equivalentes a aproximadamente 81% do público mapeado.
O maior canal identificado tinha 42.791 membros e divulgava supostos sinais para jogos de cassino. Outro, dedicado ao Fortune Tiger, o chamado “Jogo do Tigrinho”, reunia 28.601 integrantes.

Canais prometiam até 260% de lucro mensal
O conteúdo localizado no Telegram mostra como o mercado pode tentar migrar para modelos de divulgação menos visíveis depois do bloqueio de sites.
Entre as promessas encontradas estavam “260% de lucro mensal” e taxas de acerto de até 99,8%.
Alguns canais comercializavam ou promoviam supostos “robôs” para apostar e publicavam os chamados “horários pagantes” para jogos de cassino.
Outros funcionavam como intermediários, fornecendo links de cadastro para plataformas e recebendo usuários por meio de programas de indicação.
Um dos endereços analisados direcionava os participantes para uma página apontada pelo levantamento como uma falsa Sportingbet.
Governo tenta atingir toda a cadeia das apostas
A estratégia federal não se limita a retirar endereços da internet.
O Ministério da Justiça afirma que a atuação deve alcançar publicidade digital, operação clandestina, movimentação financeira, possíveis casos de lavagem de dinheiro e mecanismos utilizados para captar novos apostadores.
- Domínios: identificação e derrubada de sites usados para ofertar apostas.
- Redes sociais: remoção e monitoramento de páginas, anúncios e perfis.
- Telegram: identificação de canais, links de cadastro e redes de afiliados.
- Big techs: cobrança de mecanismos para impedir novos anúncios.
- Fluxo financeiro: rastreamento de operações ligadas a plataformas clandestinas.
Fiscalização já havia retirado 1.367 páginas e perfis
A atual operação ocorre depois de uma ofensiva anterior contra plataformas que já operavam irregularmente antes da proibição geral das bets.
Em 24 de setembro, o MJSP informou que havia determinado a remoção de 1.367 páginas e perfis no Facebook e no Instagram.
Eram 1.274 páginas no Facebook e 93 perfis no Instagram utilizados para divulgar vídeos, propagandas e links destinados a plataformas que já eram consideradas irregulares no modelo anterior.
Esses 1.367 perfis não devem ser somados automaticamente aos 506 sites como se fossem a mesma operação: são medidas diferentes, realizadas em momentos e ambientes digitais distintos.
Big techs devem entrar na próxima etapa
O relatório do Ciberlab propõe uma reunião técnica com representantes de Meta, Google e TikTok.
Entre os assuntos previstos estão o bloqueio de novos anúncios, identificação de páginas com identidade dissimulada, combate a links mascarados, atuação de afiliados e influenciadores e preservação dos dados dos anunciantes identificados.
No caso do TikTok, o governo encontrou uma limitação adicional: a biblioteca pública de anúncios da plataforma não oferece o Brasil entre os países pesquisáveis, o que impediu o mesmo tipo de levantamento realizado no Google e na Meta.
O Ciberlab pretende realizar nova coleta depois de 5 de outubro, quando termina o prazo dado pela medida provisória para a retirada de publicidade que já existia antes da proibição.
Bloquear sites não encerra o mercado clandestino
Os números dos primeiros dias mostram o tamanho do desafio para fazer a proibição funcionar no ambiente digital.
A retirada de um domínio não impede que os responsáveis criem outro endereço, migrem usuários para aplicativos, utilizem grupos privados ou recorram a publicidade indireta por meio de afiliados.
É justamente por isso que a nova fase de fiscalização tenta acompanhar simultaneamente sites, anúncios, redes sociais, grupos de mensagens e movimentações financeiras.
Por enquanto, o resultado mensurável é este: 506 sites derrubados, 43 canais e grupos de Telegram mapeados e aproximadamente 1.960 anúncios encontrados no Google.
A eficácia da estratégia dependerá do que acontecer nas próximas semanas, especialmente depois do fim do período de transição e da capacidade do governo e das plataformas digitais de impedir que os operadores simplesmente mudem de endereço ou de canal.


