Mensagens extraídas do celular do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, acrescentaram um novo nome à crise envolvendo integrantes do Supremo Tribunal Federal. Executivos da instituição financeira discutiram pagamentos à advogada Dalide Corrêa e, em uma das conversas, ela foi descrita como “sócia” do ministro Gilmar Mendes.
O escritório de Dalide recebeu R$ 33 milhões do Banco Master em 2024, segundo documentos de uma auditoria interna do BRB localizados pela Polícia Federal.
A referência a Gilmar, porém, é contestada. O gabinete do ministro afirma que nunca existiu sociedade pessoal ou profissional entre os dois. Dalide teve vínculo anterior com o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), fundado por Gilmar, mas deixou a direção da instituição em 2016.

O que dizem as mensagens encontradas pela PF?
As conversas ocorreram dentro da cúpula do Banco Master e tratavam da liberação de pagamentos ao escritório de Dalide.
Em dezembro de 2024, o então diretor jurídico Luiz Rennó cobrou de Vorcaro autorização para um pagamento relacionado a disputas de precatórios e utilizou a expressão “sócia do GM STF” para se referir à advogada.
Meses antes, em agosto de 2024, Rennó já havia pedido prioridade para uma fatura de R$ 15 milhões destinada a Dalide. Vorcaro perguntou a que o pagamento se referia e recebeu como resposta uma referência a uma vitória judicial relacionada ao caso Catende.
Outras mensagens analisadas pela investigação mostram executivos utilizando a expressão “canal direto com o STF” ao discutir pagamentos ao escritório.
Essas frases registram como integrantes do Master descreviam Dalide internamente. Elas não comprovam que a descrição correspondesse a uma relação societária real nem que o ministro tenha interferido em decisões judiciais.
Quem é Dalide Corrêa?

Dalide Barbosa Alves Corrêa é advogada e manteve uma relação profissional de anos com o IDP, instituição de ensino jurídico fundada por Gilmar Mendes.
O próprio posicionamento divulgado pelo gabinete de Gilmar afirma que Dalide exerceu o cargo de diretora-geral da instituição e deixou o instituto em novembro de 2016.
O gabinete sustenta que Dalide nunca foi sócia do IDP e que Gilmar nunca manteve qualquer sociedade com a advogada, seja na instituição de ensino ou em outra empresa.
O histórico profissional entre os dois ajuda a explicar a existência de uma conexão anterior, mas não comprova a suposta sociedade mencionada pelos executivos do Master.
R$ 33 milhões foram pagos pelo Banco Master
Os pagamentos são um elemento objetivo dos documentos revelados. Uma auditoria interna do Banco de Brasília localizada pela PF registrou que o escritório de Dalide recebeu R$ 33 milhões do Banco Master em 2024.
A atuação estava relacionada a disputas envolvendo precatórios do setor sucroalcooleiro, segundo as informações tornadas públicas.
Precatórios são dívidas do poder público definitivamente reconhecidas pela Justiça. Esses créditos podem ser vendidos a terceiros, inclusive instituições financeiras, geralmente com desconto sobre o valor originalmente devido.
No caso investigado, decisões judiciais relacionadas ao setor poderiam influenciar o valor de créditos mantidos pelo Banco Master.
Vorcaro se reuniu com Gilmar no STF
Outro fato confirmado aproxima os personagens do episódio. Daniel Vorcaro participou de uma audiência com Gilmar Mendes no Supremo em 11 de abril de 2024.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Vorcaro e advogados do Banco Master trataram com o ministro de uma causa envolvendo indenizações de empresas do setor sucroalcooleiro.
O conjunto das ações semelhantes poderia representar impacto financeiro estimado em até R$ 145 bilhões, segundo a reportagem.
Parte desses créditos interessava ao Master porque a instituição mantinha precatórios e outros direitos creditórios relacionados ao setor.
Gilmar votou contra interesse defendido pelo Master
A existência da audiência é relevante, mas o resultado posterior dos julgamentos adiciona um contraponto fundamental.
O gabinete de Gilmar afirma que o ministro votou contra o pagamento nos processos do setor sucroalcooleiro que analisou, seguindo teses defendidas pela União.
No caso da Destilaria Alcídia, julgado em junho de 2025, Gilmar votou contra a tese que interessava ao Master e ficou vencido.
A mesma nota cita os processos envolvendo Raízen e Jalles Machado e a STP 976, sustentando que nenhum dos votos do ministro nesses casos foi favorável aos interesses atribuídos ao Banco Master.
| Fato | O que está confirmado |
|---|---|
| Pagamento | Escritório de Dalide recebeu R$ 33 milhões do Master em 2024 |
| Mensagem | Executivo do banco descreveu Dalide como “sócia do GM STF” |
| IDP | Dalide foi diretora-geral da instituição fundada por Gilmar |
| Audiência | Vorcaro e advogados foram recebidos por Gilmar em abril de 2024 |
| Julgamentos | Gabinete afirma que Gilmar votou contra interesses ligados ao Master |
| Sociedade | Gilmar e Dalide negam que tenha existido |
Gabinete de Gilmar diz que associação é falsa
A resposta do ministro é categórica. Em nota reproduzida pelo UOL, o gabinete afirma que Gilmar nunca foi sócio de Dalide, nem no IDP nem em qualquer outra empresa.
O ministro também afirma não ter conhecimento da atuação da advogada nos processos relativos aos precatórios do setor sucroalcooleiro e diz que o assunto nunca foi tratado com ele por Dalide.
O escritório Alves Corrêa & Veríssimo também nega a sociedade. Segundo sua manifestação, a atuação profissional ocorreu em processos de primeira e segunda instâncias relacionados a empresas que posteriormente venderam créditos ao Banco Master.
Mensagem privada não equivale a prova de sociedade
O material encontrado produz questionamentos sobre a razão pela qual integrantes do Banco Master descreviam Dalide dessa forma e atribuíam prioridade aos pagamentos.
Há, porém, uma diferença fundamental entre a descrição feita por um executivo em uma mensagem privada e a comprovação documental de uma sociedade.
Até agora, os dados tornados públicos confirmam o pagamento ao escritório, o antigo vínculo profissional de Dalide com o IDP e a audiência entre Vorcaro e Gilmar.
As informações disponíveis não demonstram que Gilmar tenha recebido parte dos R$ 33 milhões pagos ao escritório, mantido sociedade com Dalide ou alterado um voto para beneficiar o Banco Master.
O alcance jurídico das mensagens dependerá do cruzamento com contratos, registros bancários e demais documentos reunidos na investigação.


