Como a Austrália se tornou o epicentro das extinções no planeta

Na floresta de Dryandra, no sudoeste da Austrália, pesquisadores procuram um dos animais mais raros do país: o numbat, um marsupial que parece uma mistura de esquilo com tamanduá.

A cena resume a contradição australiana: o país da fauna exuberante tornou-se o epicentro das extinções no planeta, segundo a G1.

A lista oficial tem 67 espécies extintas, mas pesquisadores estimam que pelo menos 100 já desapareceram — e o número real pode ser muito maior.

Numbat, marsupial australiano com listras brancas no dorso, sobre tronco caído
O numbat, raro marsupial australiano que chegou a estar ameaçado de extinção e hoje é símbolo de esperança — Foto: The Nature Network

Uma tempestade perfeita de ameaças

O isolamento geográfico fez da Austrália um berço de espécies únicas — e vulneráveis. Mais de 80% delas não existem em nenhum outro lugar do planeta.

A colonização europeia introduziu predadores contra os quais a fauna nativa não tinha defesas. Estima-se que gatos ferais matem cerca de 3 bilhões de animais por ano. Raposas, coelhos, sapos-cururu e formigas-de-fogo completam o cerco.

Doenças também devastam: a clamídia levou coalas à beira da extinção, e o fungo quitrídio já extinguiu sete espécies de sapos.

As mudanças climáticas agravam tudo: raposas-voadoras caem mortas das árvores em ondas de calor, e os incêndios do “Verão Negro” (2019-2020) mataram cerca de 3 bilhões de animais.

Incêndio florestal de grande proporção na Austrália, com céu alaranjado e silhueta de eucalipto
Os devastadores incêndios do “Verão Negro” (2019-2020) mataram cerca de 3 bilhões de animais na Austrália — Foto: Scientific American

O pior histórico de conservação do mundo

A Austrália lidera o mundo em extinções de mamíferos: foram 12 mamíferos e o primeiro réptil perdidos desde a colonização, conforme a Conexão Planeta.

Mais de 2 mil espécies estão ameaçadas, e o ritmo se mantém estável: cerca de quatro extinções por década.

Apesar de a Austrália ser um dos países mais ricos do mundo em renda per capita e ter muitos cientistas de excelência, nosso histórico de conservação de espécies é realmente péssimo. E as coisas não estão melhorando

Euan Ritchie, ecólogo especializado em mamíferos

Para cada dólar que o governo gasta em ações positivas de conservação da biodiversidade, A$ 26 são destinados a subsídios que prejudicam a natureza

Paul Elton, pesquisador

Espécies emblemáticas sob ameaça

O coala é o retrato mais conhecido da crise: incêndios, desmatamento e doenças reduziram drasticamente suas populações.

Coala agarrado a tronco de eucalipto na Austrália
Coala em eucalipto: a espécie é levada à beira da extinção por clamídia, incêndios e perda de habitat — Foto: iStock

Nós nos vemos como guardiões de toda a vida na Terra, então há um sentimento de perda muito mais pessoal e coletivo quando essas espécies estão em dificuldade ou desaparecem para sempre

Jack Pascoe, ecólogo e membro do povo aborígene yuin

Plano de 10 anos e promessas em disputa

O governo anunciou um plano de 10 anos e a meta de reverter a perda de biodiversidade até 2030, segundo a CNN Brasil.

O ministro do Meio Ambiente, Murray Watt, admitiu o tamanho do desafio: “Estamos perdendo biodiversidade em um ritmo alarmante”.

Mas o orçamento expõe a distância: o governo gasta cerca de A$ 700 milhões por ano com proteção da natureza — conservacionistas dizem que seriam necessários A$ 33 bilhões.

“Nós também deveríamos ter feito mais”, reconhece Robert Hill, autor da última grande reforma ambiental, de 1999.

O numbat, uma rara esperança

No meio da crise, uma boa notícia: o numbat saiu da Lista Vermelha internacional e hoje é classificado como quase ameaçado.

Há cerca de 3 mil numbats no país, e a população de Dryandra aumentou dez vezes desde que o biólogo Tony Friend chegou à floresta, nos anos 1980, e encontrou menos de 50 indivíduos.

Filhote de numbat em solo avermelhado na Austrália
Filhote de numbat avistado em santuário na Austrália: nascimentos são um sinal de esperança

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