Fraudes financeiras passam de 9 milhões no Brasil em seis meses; Pix aparece em 85% dos registros

8 min de leitura

O Brasil registrou mais de 9 milhões de indícios de fraudes financeiras no primeiro semestre de 2026, alta de 10,26% em comparação com os seis meses anteriores. O celular foi utilizado em 78% das ocorrências, enquanto o Pix apareceu na movimentação dos recursos em 85% dos registros, segundo o levantamento divulgado pela Agência Brasil.

Os dados foram produzidos pela Quod, empresa especializada em inteligência de dados para o mercado de crédito. As informações são reunidas pelo Registro Unificado de Fraudes, o Rufra, uma base colaborativa alimentada por instituições financeiras e empresas.

O total inclui suspeitas e fraudes confirmadas. Portanto, os mais de 9 milhões de registros não representam necessariamente o mesmo número de pessoas lesadas ou de golpes concluídos.

Principais números do levantamento

IndicadorResultado
Indícios de fraudes no primeiro semestreMais de 9 milhões
Crescimento sobre o semestre anterior10,26%
Ocorrências realizadas por celular78%
Registros envolvendo contas correntes94%
Movimentações feitas por Pix85%
Casos ligados à engenharia social40%
Pessoas identificadas como vítimas3,1 milhões
Vítimas atingidas duas vezes ou maisAproximadamente 799 mil

No segundo semestre de 2025, a base havia contabilizado 8,26 milhões de indícios. O aumento de 10,26% não deve ser interpretado apenas como expansão da atividade criminosa.

Segundo a Quod, novas regras e sistemas de compartilhamento permitiram que instituições financeiras detectassem tentativas que anteriormente poderiam permanecer fora das estatísticas.

Melhor detecção também elevou os registros

Fraudes

Danilo Coelho, diretor de Produtos e Dados da Quod, atribuiu parte do crescimento ao amadurecimento das defesas do mercado financeiro. As instituições passaram a compartilhar informações de forma mais ativa, permitindo identificar tentativas antes subnotificadas.

Os dados sobre o perfil das operações e das vítimas também foram detalhados em levantamento publicado pelo Poder360.

O Rufra centraliza informações para reconhecer padrões de comportamento, acompanhar registros ligados a vítimas e suspeitos e apoiar o bloqueio preventivo de operações consideradas irregulares.

Celular concentra a maior parte das ocorrências

O celular apareceu em 78% dos indícios analisados. Isso não significa que o aparelho tenha sido tecnicamente invadido em todos os casos.

Em muitas ocorrências, o próprio usuário é convencido a clicar em um link, instalar um aplicativo, compartilhar informações ou realizar uma transferência. A abordagem pode começar por ligação, mensagem de texto, aplicativo de conversa, rede social ou falso atendimento bancário.

O Banco Central diferencia golpes e fraudes. Nos golpes, a vítima costuma ser enganada e participa da operação, muitas vezes sob técnicas de engenharia social. Nas fraudes, a movimentação pode ocorrer sem uma ação direta da pessoa, como nos casos de roubo ou falsificação de informações.

As contas correntes estiveram presentes em 94% dos registros. O Pix foi usado para movimentar os recursos em 85% deles.

Esses percentuais não significam que o Pix tenha originado o golpe. O sistema pode aparecer apenas como o meio utilizado para transferir rapidamente o dinheiro depois que a vítima foi enganada.

Engenharia social aparece em 40% dos casos

A engenharia social respondeu por 40% dos registros, o equivalente a mais de 3,6 milhões de ocorrências no semestre.

Nesse tipo de golpe, o criminoso manipula a vítima para obter informações ou induzi-la a realizar uma ação. A abordagem costuma explorar medo, urgência, confiança ou promessa de vantagem.

Exemplos frequentes incluem:

  • falso funcionário de banco informando uma compra suspeita;
  • mensagem de familiar pedindo dinheiro por um novo número;
  • link falso para cancelar uma transferência ou atualizar cadastro;
  • pedido para instalar aplicativo de acesso remoto;
  • falsa central solicitando senha ou código de autenticação;
  • oferta de emprego, benefício ou prêmio condicionada a pagamento;
  • pedido para receber dinheiro e repassá-lo a outra conta.

Bancos e órgãos oficiais não solicitam senha completa, código de autenticação ou transferência para uma suposta conta segura.

Jovens representam quase metade das vítimas

Pessoas entre 18 e 34 anos representaram 49,06% das vítimas identificadas. A faixa de 35 a 49 anos respondeu por 29,98% dos casos.

Homens corresponderam a 51% dos registros e mulheres a 48%. A maioria das vítimas, 58%, recebia até dois salários mínimos.

Ao todo, 3,1 milhões de pessoas foram atingidas. Aproximadamente 799 mil sofreram duas ou mais ocorrências, número equivalente a cerca de um quarto das vítimas.

O resultado mostra que familiaridade com celulares e aplicativos não elimina o risco. Muitos golpes dependem menos de conhecimento técnico e mais da capacidade de pressionar a pessoa a tomar uma decisão rapidamente.

O que fazer após enviar um Pix em um golpe?

A vítima deve comunicar imediatamente a instituição financeira e solicitar a abertura do Mecanismo Especial de Devolução, o MED, quando o caso estiver dentro das regras do sistema.

De acordo com o Banco Central, o pedido pode ser apresentado em até 80 dias após o Pix. Quanto mais rapidamente o banco for informado, maiores serão as possibilidades de localizar e bloquear recursos ainda existentes nas contas envolvidas.

O MED não garante a recuperação do dinheiro. A devolução depende da análise das instituições, da confirmação dos indícios de fraude e da existência de saldo que possa ser bloqueado.

O próprio Banco Central orienta que o primeiro passo da vítima seja entrar em contato com o banco para comunicar o golpe e solicitar a devolução.

Também é recomendável:

  1. guardar comprovantes, mensagens, números de telefone e endereços eletrônicos;
  2. alterar senhas caso dados de acesso tenham sido informados;
  3. remover aplicativos de acesso remoto instalados durante o contato;
  4. registrar boletim de ocorrência;
  5. avisar contatos quando o criminoso estiver usando seu nome ou fotografia;
  6. acompanhar a contestação pelos canais oficiais do banco.

Como reduzir o risco de cair em uma fraude

  • não tome decisões financeiras sob pressão;
  • desligue a chamada e procure o banco pelo aplicativo ou telefone oficial;
  • não abra links recebidos por mensagens inesperadas;
  • confira o nome e o CPF ou CNPJ antes de confirmar um Pix;
  • não entregue códigos recebidos por SMS ou aplicativo;
  • não empreste sua conta para receber valores de terceiros;
  • ative biometria, alertas de movimentação e limites compatíveis com seu uso;
  • desconfie de pedidos para transferir dinheiro a uma “conta segura”.

O Banco Central mantém uma página com orientações de segurança no Pix, incluindo cuidados antes da transferência e procedimentos para situações de fraude.

Vídeo relacionado

O Banco Central publicou um vídeo explicando o MED 2.0 e como o mecanismo busca ampliar o rastreamento e a recuperação de valores enviados em golpes:

O crescimento dos registros mostra tanto a dimensão das tentativas de fraude quanto a melhoria dos mecanismos de identificação. Para o consumidor, a principal proteção continua sendo interromper contatos suspeitos, confirmar informações diretamente com a instituição e comunicar o banco rapidamente quando houver prejuízo.

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