O El Niño foi confirmado em junho de 2026 e pode provocar temperaturas mais altas, redução das chuvas e aumento do risco de incêndios florestais em áreas da Amazônia durante os próximos meses. Os modelos indicam probabilidade superior a 90% de permanência do fenômeno pelo menos até o início de 2027.
O alerta faz parte do primeiro boletim do Painel El Niño 2026–2027, elaborado por órgãos como Instituto Nacional de Meteorologia, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Cemaden, Agência Nacional de Águas, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional.
Segundo o boletim apresentado pelo Cemaden, o aquecimento do oceano Pacífico Equatorial já apresenta características compatíveis com o El Niño e pode se intensificar entre a primavera e o verão de 2026.
El Niño já está confirmado?
Sim. As condições oceânicas e atmosféricas observadas em junho confirmaram a configuração do fenômeno. O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que a média e passam a influenciar a circulação da atmosfera.
O monitoramento do CPTEC, ligado ao INPE, informa que as atuais condições no oceano e na atmosfera são compatíveis com El Niño. A tendência é de continuidade do aquecimento pelo menos durante o trimestre de agosto a outubro.
As previsões divulgadas no início de julho indicavam, para esse período, probabilidade de 42% de um evento forte e de 48% de um evento muito forte. Essas classificações são probabilísticas e podem mudar conforme novas medições forem incorporadas aos modelos.
Por isso, não é correto afirmar que o país enfrentará necessariamente uma seca extrema ou um número específico de incêndios. O boletim apresenta cenários de risco, e não uma garantia de que todos os impactos ocorrerão da mesma forma.
O que pode acontecer na Amazônia?
A previsão para o trimestre julho, agosto e setembro aponta maior probabilidade de chuva abaixo da média em partes do centro-norte do Brasil, incluindo áreas do oeste e do sul da Região Norte.
Ao mesmo tempo, as temperaturas devem permanecer acima da média em grande parte do país. A combinação de menos chuva, calor elevado e baixa umidade favorece o ressecamento da vegetação e aumenta a possibilidade de propagação do fogo.
O Inmet alerta que o cenário pode elevar a ocorrência de ondas de calor e incêndios florestais durante o segundo semestre.
Isso não significa que toda a Amazônia terá o mesmo comportamento. O volume de chuva pode variar entre estados, bacias hidrográficas e períodos do ano. Outros fatores, como temperatura do Atlântico, circulação de ventos e condições locais da vegetação, também interferem no clima.
Amazonas já apresenta áreas com seca
O boletim registrou condições de seca moderada e severa em diferentes pontos do país durante maio. Entre as áreas mencionadas estava o norte do Amazonas, além do centro-sul do Pará e do oeste do Tocantins.
Essas condições observadas antes do período mais intenso do El Niño exigem atenção porque o estado entra gradualmente na época de redução das chuvas e descida dos rios.
O documento oficial não afirma que o Amazonas repetirá obrigatoriamente as secas severas observadas em anos anteriores. Ele recomenda acompanhamento contínuo dos níveis dos rios e da evolução das chuvas.
As bacias dos rios Madeira, Tocantins e Xingu estão entre as regiões consideradas sensíveis às mudanças de precipitação associadas ao fenômeno.
O El Niño pode baixar o nível dos rios?
O El Niño pode contribuir para menos chuva em áreas que alimentam rios amazônicos, mas a resposta dos níveis não é imediata nem uniforme.
O comportamento de um rio depende das chuvas acumuladas em toda a bacia, inclusive em áreas distantes do ponto de medição. Também existe um intervalo entre a falta de chuva e a redução observada nas estações hidrológicas.
Por isso, uma previsão de chuva abaixo da média não deve ser transformada automaticamente em uma previsão de cota recorde ou de seca extrema.
Os órgãos responsáveis deverão acompanhar as bacias com dados da Agência Nacional de Águas, do Serviço Geológico do Brasil, do Cemaden e das defesas civis estaduais.
Risco de incêndios pode aumentar
O risco de incêndios cresce quando a vegetação perde umidade, as temperaturas ficam elevadas e o período sem chuva se prolonga. Nessas condições, uma chama pode se espalhar com maior rapidez.
Mesmo assim, o El Niño não inicia sozinho a maioria dos incêndios. Em grande parte das ocorrências, o fogo surge de ações humanas, como queimadas agrícolas sem controle, limpeza de terrenos, descarte de materiais em combustão ou práticas criminosas.
O fenômeno climático funciona como um agravante: ele pode deixar o ambiente mais seco e favorável à propagação.
O risco climático não elimina a responsabilidade humana pelo início do fogo. A prevenção depende de fiscalização, proibição do uso irregular das chamas e resposta rápida aos primeiros focos.
Quais são os efeitos esperados nas outras regiões?
Os impactos do El Niño tendem a ser diferentes dentro do Brasil.
- Região Sul: maior probabilidade de chuva acima da média, com risco de excesso de umidade e episódios de chuva intensa;
- Região Norte: possibilidade de menos chuva e temperaturas elevadas em algumas áreas;
- Região Nordeste: tendência de redução das chuvas em boa parte da região;
- Centro-Oeste: calor mais intenso e risco de deficiência hídrica no fim do período seco;
- Sudeste: temperaturas acima da média e condições variadas de chuva.
Esses padrões representam tendências sazonais. Eles não substituem a previsão do tempo para uma cidade ou uma semana específica.
Agricultura também pode ser afetada
Na Região Norte, a combinação de menor precipitação e temperaturas elevadas pode aumentar a evaporação, reduzir a umidade do solo e afetar pastagens, culturas perenes e produção familiar.
No Centro-Oeste, o período inicialmente mais seco pode favorecer a colheita de milho, algodão e cana-de-açúcar. Porém, a continuidade do calor pode prejudicar pastagens, recursos hídricos e o preparo da safra seguinte.
No Sul, a chuva acima da média pode beneficiar culturas de inverno, mas o excesso de umidade eleva o risco de doenças causadas por fungos.
O impacto final dependerá do momento das chuvas, da intensidade do fenômeno, das condições do solo e das estratégias adotadas pelos produtores.
El Niño muito forte ainda é uma previsão
Os modelos indicam alta probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade forte ou muito forte entre a primavera e o verão. Um evento muito forte é associado a anomalias superiores a 2°C na temperatura da superfície do Pacífico Equatorial.
Apesar disso, intensidade oceânica e impacto no Brasil não são exatamente a mesma coisa. Um El Niño forte pode provocar efeitos diferentes conforme a interação com outros sistemas atmosféricos.
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação informa que o painel será atualizado regularmente para incorporar novas observações e revisar os possíveis impactos.
O que deve ser acompanhado nos próximos meses?
Para a população do Amazonas e de outros estados da Região Norte, os principais pontos de atenção serão:
- avisos de baixa umidade e calor emitidos pelo Inmet;
- níveis dos rios divulgados por órgãos oficiais;
- boletins da Defesa Civil;
- focos de calor monitorados pelo INPE;
- restrições locais ao uso do fogo;
- condições de abastecimento de água e navegação;
- novas atualizações do Painel El Niño.
O primeiro boletim estabelece um cenário de atenção para o segundo semestre de 2026, mas as condições devem ser revistas mensalmente. A confirmação do El Niño aumenta a necessidade de preparação, sem permitir concluir antecipadamente que haverá seca recorde ou incêndios generalizados.


