A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal e as investigações do Banco Master passou a ocupar um espaço cada vez maior na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva. O discurso do presidente sobre o episódio mudou ao longo de setembro: saiu de uma reação institucional e genérica para cobranças mais diretas sobre Alexandre de Moraes, André Mendonça e a condução das apurações.
Segundo apuração publicada neste domingo (20) pela CNN Brasil, a campanha adotou uma estratégia gradual, observando primeiro a repercussão política do caso antes de elevar o tom.
Nos primeiros dias da crise, Lula evitou citar diretamente Alexandre de Moraes. Depois, passou a defender investigação “doa a quem doer”, quebra ampla de sigilo e responsabilização de qualquer autoridade que tenha cometido irregularidades.

Primeira reação evitou citar Moraes
A mudança pode ser observada na sequência das declarações públicas do presidente.
Em 3 de setembro, quando a crise ganhava força, Lula publicou um vídeo defendendo que “todo mundo” fosse investigado, sem blindagem. Alexandre de Moraes não foi citado nominalmente.
O presidente afirmou que a democracia exige instituições fortes e respeitadas e defendeu mudanças mais amplas no sistema político e no Judiciário.
Um dia depois, Lula pediu que o presidente do STF, Edson Fachin, e a Procuradoria-Geral da República liderassem uma resposta institucional capaz de preservar a confiança nas investigações.
Depois, Lula passou a pedir abertura completa dos autos
A segunda etapa do discurso veio com o debate sobre os vazamentos das investigações do Banco Master.
Em 9 de setembro, Lula defendeu a quebra completa do sigilo das investigações e criticou o que classificou como vazamentos seletivos capazes de influenciar a disputa eleitoral.
Foi nesse momento que a expressão “doa a quem doer” passou a ocupar espaço recorrente na comunicação do presidente e de seus aliados.
A posição oficial passou a ser a de que todos os nomes encontrados nos documentos e mensagens do caso Master deveriam ser submetidos aos mesmos critérios de investigação.
Moraes passou a ser citado nominalmente
A mudança mais clara ocorreu nos dias seguintes.
Em entrevista ao SBT, Lula afirmou que Alexandre de Moraes deveria responder caso tivesse cometido irregularidades. O presidente aplicou o mesmo raciocínio a André Mendonça e Edson Fachin.
Ao mesmo tempo, Lula passou a tentar separar sua própria trajetória política da de Moraes.
Em entrevista concedida em 16 de setembro, lembrou que não era presidente quando Moraes foi indicado ao Supremo. O ministro foi escolhido por Michel Temer em 2017 para ocupar a vaga aberta após a morte de Teori Zavascki.
O argumento passou a ser utilizado pelo presidente para rebater a tentativa da campanha de Flávio Bolsonaro de associar diretamente sua imagem à de Moraes.
Discurso endurece contra André Mendonça
Se Lula foi gradual ao falar de Moraes, o tom contra André Mendonça se tornou mais direto.
Em entrevista à Rádio Itatiaia no dia 17, o presidente acusou Mendonça de utilizar a função de relator do caso Master para “fazer política” e promover divulgação seletiva de informações.
A afirmação representa a posição de Lula. O Supremo ainda não estabeleceu como fato que Mendonça tenha usado a relatoria com finalidade político-eleitoral.
Mendonça tem rejeitado críticas sobre sua atuação e sustenta que as decisões tomadas no caso tiveram fundamento processual.
O cuidado é relevante porque parte da crise institucional nasceu exatamente da disputa entre ministros sobre a forma como relatórios, mensagens e dados do celular de Daniel Vorcaro foram requisitados, compartilhados e divulgados.
Lula pede análise conjunta de ministros citados no caso
Na mesma entrevista do dia 17, Lula defendeu que eventuais questionamentos envolvendo integrantes do Supremo sejam examinados de forma conjunta.
Segundo o presidente, não seria adequado analisar um nome antes das eleições e outros posteriormente.
Ele citou Moraes, Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques entre os nomes que, em sua avaliação, deveriam ter eventuais vínculos analisados sob o mesmo critério.
As menções não significam que todos estejam sendo acusados dos mesmos fatos. Os procedimentos relacionados ao caso Master têm objetos, documentos e situações jurídicas diferentes.
Crise também expôs divergência sobre atuação de Flávio Dino
Outro episódio relevante ocorreu após a sessão extraordinária do STF de 15 de setembro.
O julgamento foi interrompido após Flávio Dino pedir vista quando o plenário discutia como deveriam tramitar procedimentos envolvendo Moraes e Mendonça.
Segundo relatos publicados pela Folha, Lula teria demonstrado insatisfação com o resultado da sessão e preferia que a Corte avançasse na apuração para reduzir a incerteza institucional.
A reportagem também registrou críticas do presidente ao comportamento de Dino durante o julgamento. Dino foi ministro da Justiça do governo Lula antes de ser indicado pelo presidente ao Supremo.
O episódio complicou politicamente a tentativa de tratar a crise apenas como um conflito entre magistrados indicados por governos adversários.
Datafolha mostra que maioria não mudou o voto por causa da crise
Apesar do espaço que o caso ocupa no debate político, os dados disponíveis não mostram uma migração eleitoral generalizada causada pelo episódio.
Pesquisa Datafolha realizada entre 8 e 10 de setembro mostrou que 85% dos entrevistados disseram que as acusações envolvendo Moraes não alteraram sua preferência eleitoral.
No caso das críticas dirigidas a André Mendonça, 86% disseram que também não mudaram seu voto.
O levantamento ouviu 2.002 eleitores em 125 municípios. Como a coleta terminou em 10 de setembro, a pesquisa não mede os efeitos dos acontecimentos posteriores, incluindo a sessão extraordinária do STF e novos conteúdos encontrados nos dados de Vorcaro.
| Momento | Posição de Lula |
|---|---|
| 3 de setembro | Defende investigação sem blindagem e “doa a quem doer” |
| 4 de setembro | Cobra atuação de Fachin e da PGR para preservar confiança nas investigações |
| 9 de setembro | Pede quebra completa do sigilo do caso Master |
| 15 de setembro | Cobra rigor do STF e critica vazamentos seletivos |
| 16 de setembro | Busca se afastar politicamente de Moraes e lembra indicação por Michel Temer |
| 17 de setembro | Acusa Mendonça de atuação política e pede análise conjunta dos envolvidos |
Campanha de Flávio Bolsonaro também ajustou discurso
A crise não alterou apenas a comunicação de Lula. Flávio Bolsonaro passou a usar os episódios envolvendo Moraes e o Supremo para questionar o governo e a relação política entre integrantes da Corte e o presidente.
Ao mesmo tempo, a própria campanha de Flávio teve de recalibrar o discurso depois que documentos e mensagens passaram a mencionar outras autoridades e pessoas próximas ao campo político bolsonarista.
Reportagem recente apontou que a campanha retirou Moraes do centro de parte da propaganda televisiva e passou a enfatizar temas como segurança pública e economia.
Isso mostra que a crise do STF não opera politicamente em uma única direção: cada nova leva de documentos pode atingir atores distintos e alterar as estratégias dos candidatos.
Crise seguirá no centro da campanha enquanto STF não concluir apuração
O principal problema para as campanhas é a ausência de uma conclusão institucional.
O Supremo ainda discute o rito de procedimentos envolvendo ministros, o conteúdo integral do celular de Daniel Vorcaro segue sendo analisado e diferentes investigações relacionadas ao Banco Master continuam em andamento.
Por isso, cada novo documento pode produzir uma nova rodada de declarações políticas antes do primeiro turno.
A estratégia atual de Lula combina três movimentos: defender abertura das investigações, tentar evitar associação automática com Moraes e direcionar críticas a atuações que considera seletivas dentro do Supremo.
Esses movimentos são escolhas políticas da campanha. Se produzirão efeito eleitoral relevante é uma questão que os dados disponíveis ainda não permitem responder.


