Especialistas encontraram 31 espécies marinhas que podem ser animais nunca antes registrados pela ciência durante uma expedição em águas internacionais, segundo o G1 Ceará. Os pesquisadores ficaram em alto-mar por cerca de 15 dias e aportaram em Fortaleza no início de maio.

As imagens revelam criaturas de tamanhos e cores variados: um polvo se alimentando de uma água-viva vermelha brilhante, uma lula-de-vidro juvenil, uma serpente marinha que usa “cílios” brilhantes para se locomover e seres totalmente transparentes.

Os exploradores estudaram uma zona de difícil acesso do oceano, que fica entre a camada iluminada pelo Sol e o fundo do mar. A pesquisa foi realizada pelo Schmidt Ocean Institute, dos Estados Unidos, e envolveu tecnologias avançadas.
🐙 O que foi descoberto

A lista de descobertas inclui:
- Anfípode, um tipo de crustáceo semelhante a caranguejos e lagostas
- Um verme teia-de-fada que se move mais rápido do que os cientistas esperavam
- Nove medusas
- Sete sifonóforos, organismos coloniais parecidos com medusas e corais
- Sete ctenóforos, famosos pelos cílios brilhantes que usam para nadar
- Quatro larváceos, criaturas semelhantes a girinos que vivem em casulos de muco e são mais semelhantes aos humanos do que aos invertebrados
- Dois rizários gigantes, organismos unicelulares visíveis a olho nu
Seres de vidro e colônias brilhantes

Um sifonóforo foi flagrado a 552 metros de profundidade na costa cearense. A zona explorada é considerada uma das mais desafiadoras da Terra: escura, extremamente fria, sem luz solar e sob enorme pressão.
A ‘Ferrari’ dos navios de pesquisa

A expedição reuniu pesquisadores de Estados Unidos, Austrália, Japão e Índia — dois deles brasileiros. A equipe usou o Falkor, considerado a “Ferrari” dos navios de pesquisas marítimas.
Eles disponibilizam gratuitamente para pesquisadores que montam equipes e que mandam propostas para fazer explorações de várias áreas do oceano. Esse ano, eles estão concentrando os estudos na região do Atlântico Sul, como Brasil, Argentina, Uruguai. Ano que vem também vamos participar de outras expedições
Renato Mitsuo Nagata, biólogo do Instituto de Oceanografia da FURGUm submarino chamado Subastian

A zona pesquisada, chamada mesopelágica, fica entre 200 e 1.000 metros. Segundo Nagata, lá é tão frio que, se um ser humano cair por engano, o corpo congela imediatamente. Por isso, a equipe usou um submarino remotamente dirigido.
O ROV, chamado Subastian, é como se fosse um submarino não tripulado que tem câmeras de alta definição e vários equipamentos. Ele faz escaneamentos tridimensionais dos animais. Isso é inédito, algo que realmente é ciência da melhor qualidade possível. Com isso a gente foi capaz de enxergar esses animais, ao vivo, no seu ambiente, com as cores e comportamentos deles
Renato Mitsuo Nagata, biólogo do IO-FURGO arsenal tecnológico a bordo

- ROV Subastian: submarino não tripulado com câmeras de alta definição
- EyeRIS: imageamento 3D de altíssima precisão, desenvolvido pelo MBARI
- DeePIV: escaneamento a laser que gera modelos 3D do corpo e do movimento da água
- Câmeras super slow motion: cerca de 1.000 quadros por segundo
- Oxford Nanopore: sequenciamento completo de DNA em poucos dias
- Laboratório de genética a bordo: coleta e sequenciamento durante a expedição
- Câmaras de baixa temperatura: mantêm animais vivos para experimentos de visão, fisiologia e comportamento
Como confirmar que são espécies novas
Um estudo posterior vai confirmar se as criaturas são novas para a ciência ou se já foram catalogadas — mas Nagata acredita serem espécies inéditas. O processo pode durar anos.
“Para de fato provar que é uma espécie diferente, precisa analisar dados moleculares para descrever o DNA dessas espécies, comparar com o que já existe escrito na literatura disponível em bancos de dados, e também analisar a fundo a morfologia”, explica.
“Como tinham especialistas em biodiversidade de animais marinhos, taxonomistas, a gente já consegue ter uma ideia de que são espécies que nunca ninguém viu e que, potencialmente, são novas de fato.”
Imagina, 20 anos atrás, pensar que você vai em poucos dias sequenciar o DNA completo de um organismo, algo que nós pudemos fazer graças aos equipamentos que foram utilizados
Renato Mitsuo Nagata, biólogo do IO-FURG
O que ainda falta descobrir
Os cientistas ainda estão começando a descrever todos os seres descobertos, mas a pesquisa já revela uma abundância de organismos maior do que a esperada.
E a temporada não parou por aí: o mesmo navio apoiou outra expedição, na Zona de Fratura de Doldrums, que desceu a até 4 mil metros e encontrou chaminés subaquáticas repletas de vida, segundo a BBC Brasil. O fundo do oceano perto do Brasil, ao que tudo indica, ainda guarda muitos segredos.


