Levantamento mostra que municípios reconhecem o risco, mas ainda estão no início da preparação para proteger a população.
O calor deixou de ser apenas desconforto de verão. Em muitas cidades brasileiras, ele já afeta a rotina, a saúde, o transporte, o trabalho ao ar livre e até a forma como as pessoas ocupam as ruas.
Um levantamento recente mostrou que a maioria dos municípios analisados ainda está pouco preparada para enfrentar episódios de calor extremo. Segundo a pesquisa, 66% das cidades brasileiras avaliadas ainda não iniciaram ou estão apenas começando a elaborar planos de ação para lidar com o problema.
O dado chama atenção porque as ondas de calor se tornaram mais frequentes, mais intensas e mais longas. Ainda assim, boa parte das cidades continua reagindo ao problema apenas quando a temperatura dispara.
Por que o calor virou um problema urbano?

O calor não atinge todos os lugares da mesma forma. Em uma mesma cidade, um bairro arborizado pode ser muito mais fresco do que uma área cheia de concreto, telhados escuros e ruas sem sombra.
Esse contraste forma as chamadas ilhas de calor urbanas. Elas aparecem quando o asfalto, os prédios e as calçadas absorvem energia durante o dia e liberam esse calor lentamente, inclusive à noite.
O resultado é uma cidade que não esfria direito.
Para quem mora em casas pequenas, sem ventilação adequada ou em bairros com pouca arborização, a sensação pode ser ainda mais pesada. Dormir fica difícil. Caminhar até o ponto de ônibus vira esforço. Trabalhar na rua se torna risco.
O calor urbano é, ao mesmo tempo, ambiental, social e de saúde pública.
O que falta nas cidades brasileiras?
O levantamento mostra que muitos municípios reconhecem o calor extremo como risco, mas ainda não transformaram essa preocupação em planejamento concreto.
Na prática, um plano municipal deveria indicar o que fazer antes, durante e depois de uma onda de calor. Isso inclui alertas, pontos de hidratação, espaços de resfriamento, orientação para escolas, proteção a trabalhadores expostos e atenção especial a idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.
Também envolve medidas mais permanentes, como arborização, revisão de calçadas, criação de áreas verdes e melhoria da ventilação urbana.
O problema é que muitas cidades ainda tratam o calor como evento passageiro, não como parte da infraestrutura que precisa ser planejada.
Quem sofre mais quando a temperatura sobe?
O calor extremo pesa mais sobre quem já vive em situação de vulnerabilidade.
Idosos, crianças pequenas, pessoas com doenças cardíacas ou respiratórias, trabalhadores de rua, entregadores, vendedores ambulantes e moradores de áreas com pouca sombra estão entre os mais expostos.
A desigualdade também aparece no mapa urbano. Bairros com menos árvores, menos praças e casas mais quentes tendem a concentrar maior risco.
Enquanto parte da população consegue ligar o ar-condicionado ou se deslocar de carro, outra parte enfrenta ônibus lotado, calçadas descobertas e moradias que acumulam calor durante o dia inteiro.
Por isso, enfrentar o problema não é apenas plantar árvores. É decidir onde a sombra, a água e os serviços de proteção precisam chegar primeiro.
Que medidas podem reduzir o risco?
As soluções não dependem de uma única obra. O combate ao calor exige um conjunto de ações simples e complexas ao mesmo tempo.
Entre as medidas mais importantes estão:
- ampliar a arborização em ruas, escolas e pontos de ônibus;
- criar áreas de sombra em locais de grande circulação;
- instalar pontos de hidratação em dias críticos;
- abrir espaços públicos climatizados para pessoas vulneráveis;
- melhorar alertas de calor para a população;
- adaptar horários de atividades ao ar livre;
- usar materiais mais claros em telhados, calçadas e pavimentos;
- proteger trabalhadores expostos ao sol.
Essas ações precisam sair do papel antes da próxima onda de calor. Quando a crise chega, improvisar custa mais caro e protege menos.
Por que árvores ajudam, mas não bastam?
A arborização é uma das ferramentas mais eficientes para aliviar o calor nas cidades. Árvores criam sombra, reduzem a temperatura das superfícies e melhoram a sensação térmica.
Mas plantar mudas sem planejamento não resolve o problema.
É preciso escolher espécies adequadas, garantir espaço para raízes, cuidar da manutenção e priorizar bairros mais quentes. Uma cidade pode ter áreas verdes bonitas e, mesmo assim, deixar regiões inteiras sem sombra no dia a dia.
Além disso, o calor extremo exige medidas complementares. Abrigos, hidratação, comunicação pública, saúde preventiva e planejamento urbano precisam funcionar juntos.
A árvore é uma parte essencial da resposta. Não é a resposta inteira.
O que o Brasil está fazendo agora?
O governo brasileiro iniciou em 2026 a elaboração do Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento. A proposta é estruturar estratégias para enfrentar o aumento das temperaturas extremas e ampliar o acesso a soluções de resfriamento mais eficientes e sustentáveis.
Esse tipo de plano pode ajudar a orientar estados e municípios, mas a execução depende do poder local. É nas ruas, nos bairros, nas escolas e nos postos de saúde que o calor aparece de forma mais concreta.
A preparação precisa chegar ao cotidiano.
Não basta saber que os termômetros estão subindo. As cidades precisam decidir como vão proteger quem está no ponto de ônibus ao meio-dia, quem trabalha sob sol forte, quem mora em casas abafadas e quem não tem para onde ir quando o calor se torna perigoso.
O alerta já está dado. Agora, a diferença estará entre as cidades que tratam o calor como emergência passageira e aquelas que começam a redesenhar seus espaços para um futuro mais quente.


