Cachorros podem farejar uma praga invisível antes que ela destrua plantações

Redação

Estudo mostrou que cães treinados conseguem encontrar ovos de inseto invasor que muitas vezes passam despercebidos pelos olhos humanos.

Um cachorro farejando uma árvore pode parecer apenas uma cena comum de passeio. Mas, para pesquisadores da Virginia Tech, esse comportamento pode virar uma ferramenta poderosa contra uma praga agrícola difícil de controlar.

O alvo é a spotted lanternfly, um inseto invasor que tem causado preocupação nos Estados Unidos por atacar videiras, árvores frutíferas, florestas e outras plantas. O problema começa antes mesmo de o inseto nascer: suas massas de ovos ficam escondidas em troncos, pedras, bancos, veículos e estruturas urbanas.

Para o olho humano, esses ovos podem parecer manchas secas, lama grudada ou pequenas marcas na superfície. Para o nariz de um cão treinado, porém, eles deixam um rastro.

Por que essa praga preocupa agricultores?

Massas de ovos da spotted lanternfly aparecem em uma árvore na segunda-feira, 5 de maio de 2025, na reserva Garfield Park, do Cleveland Metroparks, em Garfield Heights, Ohio.

A spotted lanternfly é originária da Ásia e foi detectada nos Estados Unidos em 2014. Desde então, avançou por vários estados e virou uma dor de cabeça para agricultores, gestores de parques e especialistas em espécies invasoras.

O inseto se alimenta da seiva das plantas. Em grande quantidade, enfraquece árvores, prejudica videiras e deixa uma substância açucarada que favorece o crescimento de fungos escuros nas folhas e nos frutos.

Vinhedos estão entre os ambientes mais sensíveis. Por isso, encontrar os ovos antes que eles eclodam pode reduzir a população do inseto no início do ciclo.

O desafio é que as massas de ovos são discretas. Elas podem estar em lugares baixos, altos, escondidos por folhas ou grudados em superfícies que ninguém olharia com atenção.

Como os cachorros entram nessa história?

Rio, cão mestiço de pastor-australiano com boiadeiro de Gail Samko, localiza uma massa de ovos da spotted lanternfly em uma árvore na segunda-feira, 5 de maio de 2025, na reserva Garfield Park, do Cleveland Metroparks, em Garfield Heights, Ohio.

Pesquisadores testaram equipes formadas por cães comuns e seus tutores. Não eram apenas animais de elite usados por forças policiais ou equipes profissionais. Eram cães treinados para reconhecer o cheiro das massas de ovos da praga.

Nos testes em campo, os cães procuravam os ovos em áreas reais, com vegetação, cheiros concorrentes e distrações naturais.

Esse detalhe é importante. Uma coisa é treinar um animal em ambiente controlado. Outra é colocá-lo em uma área aberta, onde há cheiro de solo, planta, gente, outros animais e decomposição.

Mesmo assim, os cães se destacaram.

Em áreas mais densas, eles encontraram mais locais com ovos do que os buscadores humanos. Em alguns casos, os animais apontaram pontos que já haviam sido considerados “limpos” por pessoas experientes.

Por que o faro canino faz tanta diferença?

O olfato dos cães é muito mais sensível que o humano. Eles conseguem identificar odores em concentrações mínimas e separar cheiros misturados no ambiente.

Essa habilidade já é usada para encontrar drogas, explosivos, pessoas desaparecidas, doenças, fungos, espécies ameaçadas e até animais invasores.

No caso da spotted lanternfly, a vantagem está em localizar algo pequeno, camuflado e espalhado. Em vez de depender apenas dos olhos, os pesquisadores passam a contar com um sensor vivo, móvel e treinável.

O cachorro não entende a praga como problema agrícola. Ele segue o cheiro e espera a recompensa. Para a ciência, isso já basta.

Qual foi o resultado do estudo?

A equipe avaliou primeiro 26 duplas formadas por cães e tutores. Depois, nove equipes foram enviadas para buscar ovos em áreas de campo onde a localização das massas era desconhecida.

Os humanos faziam a procura primeiro. Em seguida, os cães entravam na área.

Em locais com vegetação densa, os animais encontraram uma média de três pontos com ovos por busca, enquanto os humanos encontraram cerca de 1,3. Isso mostrou que o faro pode complementar, e em alguns cenários superar, a inspeção visual.

O estudo também indicou um limite prático. Os cães funcionaram melhor quando os ovos estavam a até cerca de 5 metros do caminho percorrido. Quando a distância aumentava muito, a detecção caía.

Isso significa que o método não é mágico. Ele exige planejamento, treinamento e deslocamento cuidadoso.

Isso pode substituir equipes humanas?

Não exatamente.

A ideia mais promissora é usar cães como aliados. Eles podem ajudar em áreas grandes, pontos de difícil inspeção ou regiões onde a praga ainda está no começo da invasão.

Depois que o cão indica o local, uma pessoa confirma a presença dos ovos e remove a massa antes que os insetos nasçam.

Essa combinação pode ser útil especialmente em vinhedos, parques, pomares, áreas de transporte e zonas de fronteira entre regiões infestadas e não infestadas.

O método também pode envolver cidadãos comuns. Segundo os pesquisadores, tutores bem orientados poderiam formar uma rede de detecção precoce, ampliando o alcance da vigilância sem depender apenas de equipes profissionais.

O que essa descoberta pode mudar?

O estudo abre uma possibilidade interessante: usar cães treinados para enfrentar problemas agrícolas e ambientais antes que eles cresçam demais.

Se a estratégia funcionar em escala, ela pode ser adaptada para outras pragas, doenças de plantas e espécies invasoras. Os pesquisadores já falam em investigar se cães e tutores podem ajudar na detecção de ameaças que afetam videiras.

A imagem é simples e forte: enquanto humanos procuram por pequenas manchas escondidas em troncos e pedras, um cachorro segue o cheiro do problema.

Em tempos de agricultura pressionada por pragas, clima extremo e comércio global, até um passeio com um cão treinado pode virar uma linha de defesa para proteger plantações inteiras.

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