Segundo pesquisa brasileira, relógio inteligente detecta ansiedade e estresse em tempo real

Redação

Tecnologia em desenvolvimento na Unicamp usa inteligência artificial e sinais do corpo para identificar episódios ansiosos com mais de 80% de precisão.


Um relógio de pulso capaz de perceber quando alguém está entrando em um estado de ansiedade já não parece mais coisa de ficção. Segundo pesquisadores ligados ao projeto Viva Bem, da Unicamp, um relógio inteligente detecta ansiedade e estresse em tempo real com ajuda de inteligência artificial e sinais fisiológicos captados por smartwatches.

A tecnologia ainda está em fase experimental, mas já acerta mais de 80% das análises, de acordo com apresentação feita durante a FAPESP Week Londres. A proposta não é substituir médicos ou psicólogos, mas funcionar como uma camada extra de monitoramento, capaz de alertar o usuário quando episódios ansiosos começarem a se repetir.

O tema chama atenção porque aproxima saúde mental e tecnologia de um jeito muito direto. Em vez de esperar apenas pelos sinais mais evidentes, o sistema tenta perceber pequenas mudanças do corpo antes mesmo que a pessoa organize mentalmente o que está sentindo.

Como o relógio inteligente detecta ansiedade?

Para que o sistema funcione, o relógio coleta informações contínuas do corpo. Entre os dados mais importantes estão o eletrocardiograma, que registra a atividade elétrica do coração, e a acelerometria, que acompanha os movimentos do braço ao longo do dia.

Esses dados formam uma espécie de assinatura individual. A inteligência artificial aprende a reconhecer o padrão normal daquele usuário e, depois, compara esse padrão com alterações associadas a estados de estresse e ansiedade.

Segundo a Agência FAPESP, a equipe do Viva Bem desenvolveu protocolos clínicos para induzir estresse de forma controlada e, assim, treinar os algoritmos. Em um dos testes, voluntários precisavam fazer cálculos mentais com tempo curto e contagem regressiva no próprio relógio — uma situação simples, mas suficiente para provocar ansiedade e gerar dados úteis para o sistema.

Por que essa tecnologia chamou tanta atenção?

O ponto mais forte é que ela atua como um alerta precoce. Em vez de tentar dar um diagnóstico fechado, o sistema procura reconhecer padrões recorrentes e sugerir que a pessoa busque ajuda especializada quando necessário.

Isso muda bastante a lógica de uso dos vestíveis. Em vez de servir apenas para contar passos, monitorar sono ou frequência cardíaca, o smartwatch passa a ter potencial para acompanhar aspectos mais sutis do bem-estar.

No Hub Viva Bem, a proposta é justamente essa: usar dispositivos vestíveis para monitoramento contínuo da saúde, com foco em soluções mais personalizadas, proativas e baseadas em dados do próprio indivíduo.

O que o sistema consegue perceber no corpo?

A ansiedade costuma deixar rastros fisiológicos. Nem sempre eles são visíveis de imediato, mas podem aparecer nos sinais captados por sensores do relógio.

Entre os indícios que os pesquisadores tentam correlacionar estão:

  • alterações nos batimentos cardíacos;
  • mudanças nos padrões de movimento;
  • respostas ligadas ao estresse físico;
  • combinações de sinais corporais repetidos;
  • diferenças entre o estado de repouso e o estado ansioso.

No caso das pesquisas do Viva Bem, o interesse não é olhar um único dado isolado, mas observar o conjunto. É essa combinação que ajuda a IA a entender quando o corpo está se afastando do padrão habitual.

Isso já substitui consulta médica?

Não. Esse é um dos pontos mais importantes do tema.

Os próprios pesquisadores reforçam que a ferramenta não foi criada para diagnosticar transtornos de ansiedade. A ideia é funcionar como um aviso, uma sentinela silenciosa que pode sugerir ao usuário procurar um especialista se os episódios ansiosos forem recorrentes.

Esse cuidado é essencial porque ansiedade e estresse podem ter muitas causas diferentes. Um wearable pode captar sinais físicos, mas a interpretação clínica continua dependendo de avaliação profissional.

Também por isso, a tecnologia ainda não foi liberada para uso amplo. Segundo a Agência FAPESP, quando os resultados forem considerados maduros o suficiente, os pesquisadores deverão buscar autorização de órgãos como a Anvisa para testes com usuários reais em etapas mais avançadas.

O que mais esse projeto pretende monitorar?

O trabalho do Viva Bem não se limita à ansiedade. O hub, que reúne Unicamp, FAPESP e Samsung, pesquisa o uso de inteligência artificial em várias frentes de saúde e bem-estar.

Entre as áreas citadas pelo projeto estão:

  • distúrbios do sono;
  • Parkinson;
  • diabetes, hipertensão e síndrome metabólica;
  • risco de quedas em idosos;
  • monitoramento de composição corporal;
  • comportamento sedentário.

Isso ajuda a entender por que o estudo do smartwatch ganhou tanta repercussão. Ele não é uma solução isolada, mas parte de uma linha maior de pesquisa que tenta transformar relógios inteligentes em ferramentas de monitoramento contínuo da saúde.

Por que isso importa agora?

A relação entre saúde mental e tecnologia costuma despertar desconfiança, mas também mostra o tamanho da mudança em curso. Se um relógio já consegue identificar sinais físicos compatíveis com ansiedade, abre-se um caminho novo para o monitoramento precoce de condições que muitas vezes passam despercebidas no dia a dia.

Ainda há etapas importantes até essa tecnologia sair do laboratório, e ninguém deveria tratá-la como diagnóstico automático. Mesmo assim, a ideia de receber um alerta antes que o corpo entre em um ciclo mais intenso de estresse já mostra como os wearables estão deixando de ser apenas acessórios.

Em um momento em que a saúde mental virou assunto central, talvez o detalhe mais curioso seja esse: um dos sinais mais promissores de futuro pode estar justamente no pulso.

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