A nova espécie na Antártida que vive entre frio extremo e calor de vulcão

Redação

Microrganismo identificado por pesquisadoras brasileiras foi encontrado em uma ilha vulcânica onde gelo, mar e fumarolas quentes existem lado a lado.

A nova espécie na Antártida parece ter sido feita para sobreviver onde quase nada parece confortável. Ela vive em uma ilha vulcânica cercada por gelo, água fria e áreas aquecidas por gases que saem do solo.

O microrganismo recebeu o nome científico de Pyroantarcticum pellizari e foi identificado por pesquisadoras da Universidade de São Paulo. A descoberta foi divulgada pela Agência FAPESP e publicada na revista científica ISME Communications.

O que torna o caso tão chamativo é o ambiente em que essa arqueia foi encontrada: a Ilha Deception, na Antártida. Ali, a água gelada do oceano fica próxima de regiões vulcânicas muito quentes, criando um contraste raro entre frio extremo e calor intenso.

Onde a nova espécie na Antártida foi encontrada?

A nova espécie pertence a um dos grupos de seres vivos mais primitivos do planeta, conhecidos por viverem em ambientes extremos há bilhões de anos – Foto: Acervo pessoal/Amanda Bendia

A descoberta veio de amostras coletadas na Ilha Deception, uma ilha vulcânica da Antártida. O local tem uma caldeira inundada pelo oceano e áreas com fumarolas, aberturas no solo por onde saem gases quentes de origem vulcânica.

Segundo o Jornal da USP, o material genético do microrganismo foi encontrado em sedimentos de uma fumarola. A região é considerada extrema porque combina ambiente polar, influência marinha e atividade geotérmica.

Essa mistura cria mudanças bruscas de temperatura. Em um ponto, o frio domina. Em outro, o calor do vulcão altera completamente as condições do solo e da água.

O que é uma arqueia?

A nova espécie não é uma bactéria comum. Ela pertence ao domínio Archaea, um grupo de microrganismos unicelulares sem núcleo celular.

As arqueias podem lembrar bactérias na aparência microscópica, mas são geneticamente e bioquimicamente diferentes. Muitas delas chamam atenção por viverem em ambientes extremos, como fontes hidrotermais, regiões muito salinas, áreas ácidas e locais de alta temperatura.

No caso da Pyroantarcticum pellizari, o interesse é ainda maior porque ela pertence à família Pyrodictiaceae, associada a organismos capazes de suportar calor intenso.

Como as pesquisadoras descobriram esse microrganismo?

A história começou anos antes da identificação oficial. As amostras foram coletadas em 2014 pela pesquisadora Amanda Bendia, durante uma expedição do Programa Antártico Brasileiro, o Proantar.

Depois, o material passou por sequenciamento metagenômico. Essa técnica permite analisar o material genético de uma amostra ambiental complexa, sem precisar cultivar o organismo em laboratório.

Anos mais tarde, os dados foram reanalisados com ferramentas computacionais. Foi nesse processo que as pesquisadoras perceberam que havia ali uma linhagem ainda desconhecida. A espécie foi nomeada em homenagem à microbiologista Vivian Pellizari, pioneira no Brasil nos estudos sobre microrganismos de ambientes extremos.

Por que ela consegue viver em extremos?

O estudo mostra que o genoma da nova arqueia traz pistas importantes sobre sua sobrevivência. A espécie possui genes ligados à proteção do DNA, estabilidade de membranas, resposta ao estresse térmico e resistência a condições químicas difíceis.

Entre os mecanismos identificados estão:

  • proteínas que ajudam a proteger o DNA em temperaturas elevadas;
  • sistemas de resposta ao estresse;
  • genes ligados à estabilidade da membrana celular;
  • mecanismos relacionados à detoxificação de metais;
  • vias associadas ao ciclo do enxofre e do nitrogênio;
  • estruturas que podem ajudar na interação com o ambiente ao redor.

Esses elementos funcionam como um conjunto de ferramentas biológicas. Não é apenas resistência ao calor. É uma combinação de adaptações para lidar com um ambiente instável, onde temperatura, química e disponibilidade de energia podem mudar bastante.

O que torna a Ilha Deception tão especial?

A pesquisa científica na Antártida é fundamental para o entendimento do clima global, atuando como um laboratório natural para estudos de mudanças climáticas, biodiversidade e astronomia – Foto: Amanda Bendia e outros autores/Academia Brasileira de Ciências

A Ilha Deception é uma espécie de laboratório natural. Ela fica em uma região polar, mas também é um vulcão ativo. Isso permite estudar como a vida se adapta quando condições opostas aparecem no mesmo espaço.

Condição do ambientePor que chama atenção
Gelo e água friaRepresentam o ambiente polar típico
Fumarolas quentesCriam pontos de calor intenso
Influência marinhaMistura compostos do oceano ao ambiente vulcânico
Sedimentos extremosPodem abrigar microrganismos raros
Grande variação térmicaExige adaptações celulares especiais

Essa combinação ajuda a explicar por que os cientistas se interessam tanto por microrganismos antárticos. Eles podem revelar estratégias de sobrevivência que não aparecem em ambientes comuns.

O que isso tem a ver com vida fora da Terra?

A descoberta não prova que exista vida em outros planetas ou luas. Mas ajuda a pensar em uma pergunta importante: quais formas de vida poderiam sobreviver em ambientes extremos fora da Terra?

A Agência FAPESP destaca que o projeto também dialoga com estudos sobre possíveis condições habitáveis em luas geladas do Sistema Solar, como Europa, de Júpiter, e Encélado, de Saturno. Esses mundos têm oceanos sob camadas de gelo e despertam grande interesse na astrobiologia.

Nesse sentido, estudar uma arqueia que vive entre gelo, mar e calor vulcânico ajuda a ampliar o repertório de possibilidades. A vida, pelo menos na Terra, já mostrou que consegue ocupar espaços muito mais difíceis do que se imaginava.

Por que essa descoberta importa?

A Pyroantarcticum pellizari é pequena demais para ser vista a olho nu, mas sua descoberta abre uma janela para um mundo pouco explorado.

Ela ajuda a entender melhor as arqueias, um domínio da vida que ainda guarda muitas lacunas. Também mostra a força da ciência brasileira em pesquisas de ponta na Antártida, unindo expedições de campo, genética, bioinformática e microbiologia.

Talvez o aspecto mais interessante seja o contraste. Em uma ilha cercada por frio, gelo e mar, uma forma microscópica de vida guarda sinais de adaptação ao calor extremo. É como se a Antártida, vista quase sempre como símbolo do congelamento, escondesse também uma história quente no nível mais invisível da vida.

Fontes consultadas

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