
Parintins é uma cidade amazônica que mistura mitos indígenas, tradições religiosas e grandes espetáculos. Situada na ilha de Tupinambarana, no rio Amazonas, a cidade tem pouco mais de 96 mil habitantes (Censo 2022) e uma área de 6 044 km².
Esta dimensão insular explica a forte ligação do município ao rio e às lendas fluviais. Conhecida mundialmente pelo Festival Folclórico de Parintins, a cidade possui uma história que começa muito antes da fama recente: seus primeiros registros remontam ao século XVIII, quando exploradores portugueses criaram um núcleo de missão na região.
Ao longo dos séculos, Parintins se transformou de vilarejo religioso em sede do segundo maior evento cultural do Brasil. Este artigo traz uma visão completa da cidade, reunindo contexto histórico, geografia, arquitetura, nomes que moldaram a cultura local e dicas práticas para visitantes.
Raízes históricas de Parintins

Parintins, situada na ilha de Tupinambarana, possui uma história que começa muito antes do Festival de Parintins se tornar famoso. As raízes da cidade remontam ao século XVIII. Os povos indígenas Parintintin, que batizaram a região, já habitavam essa área rica em biodiversidade. O primeiro contato documentado com os europeus ocorreu em 1749, quando o explorador José Gonçalves da Fonseca navegou pelo rio Amazonas e identificou a ilha.
A fundação oficial da cidade veio décadas depois. Em 1796, José Pedro Cordovil estabeleceu uma missão católica e uma fazenda de cacau, criando a base do povoado. Em 1803, a missão foi elevada à Vila Nova da Rainha, administrada pelo frade José das Chagas, marcando o início da colonização permanente.
Com o crescimento populacional e a importância comercial, a vila passou por novas mudanças de status: em 1848, foi promovida a Vila Bela Imperatriz, reflexo do prestígio do Império brasileiro. Já em 1852, a localidade se tornou município, fortalecendo sua autonomia administrativa. O nome “Parintins”, em homenagem à nação indígena Parintintin, só foi oficialmente adotado em 1880. Essa mudança selou a identidade amazônica da cidade.
Cronologia marcante de Parintins
A trajetória de Parintins ao longo dos séculos evidencia como um simples núcleo missionário se transformou em referência cultural mundial. A seguir, veja os fatos mais marcantes dessa linha do tempo:
- 1796 – fundação oficial: O capitão José Pedro Cordovil, sob ordens da Coroa portuguesa, ergueu uma fazenda de cacau na ilha de Tupinambarana, dando origem ao povoado. Esse ato marcou o início da colonização permanente e fixou as bases para a cidade.
- 1833 – criação da paróquia: A comunidade religiosa foi elevada à condição de freguesia com o nome Nossa Senhora do Carmo. A data reforça a influência católica no desenvolvimento de Parintins e explica por que a padroeira permanece central nas festividades locais.
- 1848 e 1852 – mudanças administrativas: Em 1848, o povoado ganhou status de vila sob a denominação Vila Bela Imperatriz, e em 1852 tornou‑se município autônomo. Esses títulos refletem a importância econômica crescente da região na navegação e no comércio fluvial.
- 1880 – adoção do nome Parintins: Para homenagear os povos Parintintin, a cidade passou a se chamar Parintins. A nova identidade aproximou o município de suas raízes indígenas.
- 1913 – nascimento dos bois Caprichoso e Garantido: Nesse ano, dois grupos folclóricos rivais surgiram quase simultaneamente. Lindolfo Monteverde criou o Boi Garantido em 24 de junho como promessa a São João, enquanto os irmãos Roque, Antônio, Beatriz e Pedro Cid, vindos do Ceará, fundaram o Boi Caprichoso em 20 de outubro. A partir de então, a rivalidade cultural entre azul e vermelho passou a definir a cultura da ilha.
- 1965 – primeira edição do Festival Folclórico: Jovens da comunidade organizaram o primeiro Festival de Parintins para arrecadar fundos para a construção da catedral. No ano seguinte, os bois Caprichoso e Garantido se apresentaram pela primeira vez na competição, inaugurando a disputa que atrai multidões.
- 1988 – inauguração do Bumbódromo: O governo estadual inaugurou o Centro Cultural de Parintins, conhecido como Bumbódromo, com capacidade para 35 000 pessoas. O estádio em forma de cabeça de boi profissionalizou o espetáculo e possibilitou uma estrutura digna de grandes shows.
- 1994–1999 – primeira transmissão televisiva: A festividade começou a romper fronteiras em 1994, quando a TV Amazonas (afiliada da Rede Globo) transmitiu o festival ao vivo para o estado do Amazonas. Esse contrato durou até 1999.
- 1996 – hit “Tic, Tic Tac” leva Parintins ao mundo: Produzida originalmente para o festival, a música “Tic, Tic Tac” foi gravada pelo grupo amazonense Carrapicho e, graças ao apoio do cantor francês Patrick Bruel, tornou‑se um dos maiores sucessos do verão europeu. O single liderou as paradas francesas por três semanas e foi um dos primeiros a receber disco de diamante na França. O fenômeno ajudou a divulgar o ritmo do boi-bumbá internacionalmente.
- 2008–2012 – transmissão global: A Rede Bandeirantes assumiu os direitos de transmissão e exibiu os três dias de festa em alta definição para todo o Brasil. Por meio da Band Internacional e da internet, o espetáculo foi transmitido para mais de 130 países, consolidando o Festival de Parintins como evento global.
- 2015–2017 – recordes de audiência: Nos 50 anos do festival (2015), a transmissão ao vivo foi realizada pela Rede Calderaro e exibida pela Record Internacional, ampliando ainda mais o alcance. Em 2017, uma parceria entre a TV A Crítica e a TV Cultura levou o espetáculo, na íntegra, a todas as 27 unidades federativas do Brasil, atingindo uma audiência estimada em 132 milhões de pessoas.
- 2018 – reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial: O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) declarou o Complexo Boi‑Bumbá e o festival patrimônio cultural imaterial, destacando sua relevância para a identidade amazônica.
O ciclo da juta e a imigração japonesa em Vila Amazônia

No início do século XX, a economia amazônica enfrentou o declínio do ciclo da borracha. Em busca de alternativas, o governo do Amazonas ofereceu terras a imigrantes japoneses. Esse convite deu origem à Vila Amazônia, comunidade agrícola planejada às margens de Parintins.
primeiros imigrantes chegaram em 1929 com a missão de plantar guaraná em Maués, mas somente em 1931 desembarcaram os koutakuseis, jovens oriundos de uma escola de agricultura no Japão, que juravam nunca mais retornar à terra natal.
Os japoneses se dedicaram à aclimatação da juta, fibra de origem indiana usada em sacarias. O processo foi longo: durante os primeiros anos, as plantas não passavam de dois metros. Apenas em 1934, na propriedade de Ryota Oyama, duas mudas alcançaram cerca de quatro metros de altura.
A partir dessas sementes, os colonos desenvolveram novas variedades resistentes. Em 1937, Ryota conseguiu colher seis toneladas de fibra e outro colono, Yoshimasa, colheu quatro toneladas; a qualidade surpreendeu compradores que duvidavam que a juta pudesse vir do Amazonas. Esse sucesso transformou a vila em referência agrícola e ajudou a recuperar a economia regional após o fim do ciclo da borracha.
O projeto atraiu centenas de imigrantes: estima‑se que mais de 400 japoneses viviam na região até 1938, formando uma das primeiras comunidades nipo‑brasileiras da Amazônia. Eles construíram escolas, igrejas, centros comunitários e influenciaram a gastronomia local com pratos como yakisoba de tucupi e doces de banana caramelada. Hoje, o bairro de Vila Amazônia mantém museus e o Parintins Japan–Brazil Association, preservando a memória dessa saga. A cultura da juta ainda é celebrada nas festas locais, e os descendentes dos koutakuseis continuam a contribuir para a diversidade cultural e econômica de Parintins.
Arquitetura e patrimônio: catedral e mercado
A arquitetura de Parintins reflete a fusão entre as tradições religiosas, a economia fluvial e a modernização da cidade. Dois símbolos ilustram essa história: a Catedral de Nossa Senhora do Carmo e o Mercado Municipal Leopoldo Neves.
Catedral de Nossa Senhora do Carmo

A primeira igreja dedicada à padroeira foi erguida em 1806 na Praça do Cristo Redentor, mas acabou demolida em 1905 para dar lugar a uma construção maior. A catedral atual começou a ser construída em 1961, com projeto do engenheiro italiano Giovanni Butori e apoio do bispo Dom Arcângelo Cerqua, que mobilizou a população em uma campanha para erguer o templo. A torre foi concluída somente em 1981 sob a coordenação de José Ribeiro e do engenheiro parintinense Simão Assayag; ela tem 42 metros de altura, 176 degraus e no topo há uma estátua de Nossa Senhora.
O edifício, em forma de cruz, impressiona pela amplitude: 75 metros de comprimento e 50 metros de largura. Dentro, vitrais retratam cenas bíblicas e a cultura amazônica. A catedral é tombada pelo Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico do Amazonas, reconhecendo sua importância cultural. Além disso, o esforço para financiá-la — que durou mais de duas décadas — deu origem ao primeiro festival folclórico na década de 1960, mostrando como arquitetura e cultura popular estão interligadas.
Mercado Municipal Leopoldo Neves

Às margens do rio Amazonas, o Mercado Municipal Leopoldo Neves é outro cartão‑postal. Inaugurado em 1937, o edifício foi reinaugurado em maio de 2019 após uma ampla restauração. A reforma preservou o corpo original, de estilo eclético, e acrescentou um pavimento superior com varandas e um hall moderno. Do lado de fora, a construção em tijolos aparentes contrasta com o azul intenso do rio, criando uma paisagem fotogênica.
No mercado, visitantes encontram peixes frescos, carnes, frutas regionais, farinha, ervas, café e artesanato. O espaço abriga 28 boxes com restaurantes, lanchonetes e frutarias, tornando‑se um ponto de encontro tanto durante o dia quanto à noite. A nova proposta transforma o mercado em palco para música acústica e apresentações culturais, reforçando sua função como centro de convivência e preservação de saberes gastronômicos. Durante a cheia, as águas do rio batem nos pilares do prédio, lembrando a proximidade entre a vida urbana e o ambiente natural.
Festival Folclórico de Parintins: o duelo entre Caprichoso e Garantido

No coração do calendário cultural amazonense, o Festival Folclórico de Parintins acontece no último fim de semana de junho e transforma a ilha em um palco grandioso. O evento é o segundo maior festival popular do Brasil, perdendo apenas para o Carnaval do Rio de Janeiro. Durante três noites, milhares de espectadores enchem o Bumbódromo — arena em forma de cabeça de boi inaugurada em 1988, com capacidade para 35 mil pessoas. O estádio possui arquibancadas divididas em azul e vermelho, refletindo a rivalidade entre os bois.
A estrutura do espetáculo

O festival gira em torno do boi-bumbá, uma versão amazônica da lenda do boi que morre e é ressuscitado. Cada noite é uma competição entre duas agremiações rivais:
- Boi Caprichoso (azul), representado por um boi preto com uma estrela na testa.
- Boi Garantido (vermelho), identificado por um boi branco com um coração na testa.
Ambos têm duas horas e meia para contar a história do boi com toadas, danças, alegorias e encenações. O júri avalia critérios como harmonia, evolução, tema, alegoria, coreografia e torcida. Cada apresentação mescla mitos indígenas, lendas caboclas e mensagens socioambientais, trazendo temas como preservação da floresta, direitos dos povos originários e questões atuais. Esse diálogo entre tradição e contemporaneidade é um dos diferenciais do festival.
O papel do Bumbódromo e da torcida
O Bumbódromo, projetado especificamente para o festival, é mais que um palco: é um símbolo arquitetônico e identitário. Seu formato de cabeça de boi homenageia a lenda do boi-bumbá, e o público se divide nas cores dos times, seguindo a regra de não vestir azul na área vermelha e vice-versa. A energia da torcida é parte essencial do julgamento; cânticos e coreografias ensaiados marcam cada entrada de alegoria.
Impacto cultural e econômico
Além do apelo cultural, o festival impulsiona a economia local. Em 2026, os organizadores estimavam 126 mil visitantes e um impacto financeiro de cerca de 37 milhões de dólares, sustentando aproximadamente 30 mil empregos em setores como hotelaria, transporte fluvial, alimentação e artesanato. Esse volume de negócios mostra como a cultura movimenta a economia, especialmente em uma ilha que vive do turismo sazonal.
O Festival Folclórico de Parintins foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2018, reforçando sua importância para a identidade amazônica. Ao mesmo tempo, a criatividade das comunidades locais continua a surpreender. Cada ano traz novos enredos, fantasias grandiosas e tecnologias de iluminação e som, evidenciando a capacidade de inovação sem perder a essência tradicional.
Difusão nacional e internacional: o mundo descobre Parintins

A jornada do Festival de Parintins até os holofotes globais é marcada por estratégias de mídia, hits musicais e adaptações culturais que ampliaram seu alcance além da Amazônia.
Da transmissão local à audiência global
O festival, inicialmente restrito à ilha, começou a ganhar projeção em 1994, quando a TV Amazonas, afiliada da Rede Globo, transmitiu o evento ao vivo para o estado do Amazonas. Esse contrato se manteve até 1999. Em 2000, os direitos passaram à TV A Crítica, então afiliada do SBT, que levou as apresentações para outros estados. O grande salto aconteceu entre 2008 e 2012, quando a Rede Bandeirantes exibiu os três dias de festa em alta definição para todo o Brasil e, via Band Internacional, transmitiu o espetáculo na íntegra para mais de 130 países, também pela internet.
A partir de 2013, emissoras dividiram a cobertura: a TV Amazonas exibiu o Boi Caprichoso, enquanto a TV A Crítica mostrou o Boi Garantido. Em 2014, a Rede Calderaro de Comunicação retomou a transmissão conjunta, usando televisão, rádio e portal online.
O jubileu de ouro, em 2015, foi transmitido ao vivo pela Rede Calderaro e exibido internacionalmente pela Record Internacional. No ano seguinte, o festival ganhou sua própria plataforma de streaming, Critica Play, disponível para Android, iOS e internet. A consagração veio em 2017, quando a TV Cultura formou parceria inédita com a TV A Crítica e retransmitiu o sinal para 26 estados e o Distrito Federal, alcançando um público estimado em 132 milhões de pessoas. Essas transmissões contribuíram para que o boi-bumbá fosse reconhecido mundialmente.
A força da música e da cultura pop
Além da televisão, a música desempenhou papel crucial. Em 1996, o grupo amazônico Carrapicho lançou a toada “Tic, Tic Tac”, originalmente composta para exaltar o festival. O cantor francês Patrick Bruel descobriu a canção, produziu uma versão e a difundiu na França, onde liderou as paradas por três semanas e conquistou disco de diamante. O hit alcançou Bélgica, Holanda, Espanha e países da América, tornando‑se um fenômeno de verão e apresentando o ritmo do boi-bumbá ao mundo. A repercussão internacional da música aumentou o interesse de estrangeiros pelo festival e levou Carrapicho a fazer turnês na Europa e na Ásia.
Marcas globais e adaptações locais
A influência cultural do festival é tão forte que até grandes marcas se adaptam às cores dos bois. Durante a semana das apresentações, a Coca-Cola distribui latas e propagandas em vermelho e azul — cores dos Bois Garantido e Caprichoso — para não parecer parcial. Bares, restaurantes e até embarcações de turismo adotam a cromia, demonstrando como a rivalidade permeia o cotidiano e o comércio local. Esse detalhe curioso mostra o poder de uma festa regional de moldar estratégias de marketing de uma multinacional.
A soma desses fatores — transmissões de TV, sucesso musical e estratégias de marketing — transformou Parintins em destino cultural cobiçado. Hoje, turistas de todas as partes do mundo viajam à ilha para viver a experiência única de um teatro a céu aberto no coração da Amazônia.
Personagens lendários
A história de Parintins é marcada por figuras que moldaram a cultura local e garantiram a sobrevivência do festival. Conhecer essas personalidades ajuda a entender por que o boi-bumbá se tornou um símbolo nacional.
Lindolfo Monteverde – o coração do Boi Garantido
Em 24 de junho de 1913, o jovem pescador e agricultor Lindolfo Monteverde criou o Boi Garantido após fazer uma promessa a São João. Ele jurou construir um boi e realizar uma festa de ladainhas e danças caso fosse curado de uma doença grave. A cabeça do seu boi era feita de curuatá, uma fibra dura, o que lhe garantiu durabilidade nas brincadeiras de rua; daí veio o nome “Garantido”, pois não quebrava facilmente.
Monteverde tornou-se mestre das toadas, compôs letras e melodias que ainda hoje são cantadas nas apresentações. Sua influência perdura: o curral de ensaios do Garantido leva seu nome, e desde 2012 o dia 2 de janeiro é celebrado em Parintins como Dia da Tradição, em sua homenagem. Ele é lembrado como o coração do boi vermelho, símbolo de perseverança e devoção.
Roque Cid e a família Cid – fundadores do Boi Caprichoso

O surgimento do Boi Caprichoso em 1913 está ligado aos irmãos Roque, Antônio, Beatriz e Pedro Cid, imigrantes de Crato, no Ceará. Ao chegarem ao Amazonas, Pedro Cid permaneceu em Belém em busca de trabalho, enquanto Roque e Antônio seguiram para Manaus. Lá, assistiram a uma brincadeira de boi chamada “Caprichoso” na Praça 14 de Janeiro e ficaram encantados com as toadas, o ritmo e a animação.
De volta a Parintins, reuniram amigos e, no 20 de outubro de 1913, no local conhecido como Reduto do Esconde (atual Travessa Sá Peixoto), deram vida ao Boi Caprichoso. A apresentação foi uma promessa a São João e rapidamente se tornou popular; pescadores, lavadeiras e pedreiros se juntaram, dançando sob as lamparinas e dando início à tradição azul e branca. O boi preto com uma estrela azul na testa conquistou a simpatia do povo e começou a percorrer as ruas de Parintins, marcando o território que se tornaria a sede da rivalidade com o Boi Garantido.
Com isso, os irmãos Cid se eternizaram na história do festival como os criadores do Boi Caprichoso, complementando o legado de Lindolfo Monteverde (Boi Garantido) e Zeca Xibelão, formando o trio de figuras fundamentais da cultura bovina parintinense.
Zeca Xibelão – o tuxaua criador do estilo
Se o Garantido tem seu patriarca, o Boi Caprichoso também possui um ícone: José Thomaz Monteiro Neto, mais conhecido como Zeca Xibelão. Considerado o primeiro tuxaua do boi azul, ele ficou famoso por sua dança enérgica e por trajes exuberantes confeccionados com penas e miçangas. Sua fantasia mais marcante trazia a imagem de Nossa Senhora do Carmo, unindo fé e folclore. O apelido “Xibelão” foi dado pelo bispo Dom Arcângelo Cerqua porque o rosto arredondado de José lhe lembrava alguém que comia muito xibé (mingau de farinha com água).
Zeca inovou ao introduzir elementos estéticos indígenas nas apresentações do Caprichoso, revolucionando o visual das alegorias e inspirando gerações de artistas. Em reconhecimento, o curral de ensaios do boi azul foi batizado de Zeca Xibelão Arena, um espaço que funciona como memorial e centro cultural para ensaios, oficinas e eventos. Seu legado mostra como a criatividade individual pode redefinir a cultura de um povo.
Dom Arcângelo Cerqua – o pastor que apoiou o festival

A história religiosa de Parintins está entrelaçada com o festival graças ao trabalho de Dom Arcângelo Cerqua, missionário italiano do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras (PIME). Nomeado em 1961 como primeiro bispo da recém‑criada Diocese de Parintins, ele permaneceu no cargo até 1989.
Cerqua não apenas construiu a catedral e incentivou a fé católica, mas também apoiou a cultura local: ajudou a arrecadar recursos para a construção do Bumbódromo, participou de ensaios e incentivou o uso de símbolos religiosos nas apresentações.
Foi Dom Arcângelo quem deu o apelido “Xibelão” a José Thomaz Monteiro, estreitando a ligação entre a igreja e o boi-bumbá. Poeta nas horas vagas, ele escreveu versos sobre o amor à Amazônia e, ao falecer, em 2019, pediu para ser sepultado na Catedral de Nossa Senhora do Carmo. Sua atuação mostra como líderes religiosos podem valorizar as tradições populares e promover o diálogo entre fé e cultura.
Geografia, clima e biodiversidade

Parintins é a segunda cidade mais populosa do estado do Amazonas (atrás apenas de Manaus) e ocupa uma área de 6 044 km², com população de 96 372 habitantes (Censo 2022). Localiza‑se na margem direita do rio Amazonas, sobre a ilha de Tupinambarana, a cerca de 369 km de Manaus, formando parte da micro‑região homônima. O acesso se dá principalmente por via fluvial — balsas e barcos regionais — ou por via aérea, já que não existem estradas ligando a ilha ao continente.
Relevo e hidrografia
O território é dominado por duas formações vegetais: florestas de várzea (áreas inundáveis) e florestas de terra firme, intercaladas por lagos e pequenas ilhas. O relevo inclui uma única elevação de destaque, a Serra de Parintins, com 152 m de altitude, rodeada por vegetação densa e rica em fauna e flora. Próximo à serra encontra‑se o Lago da Valéria, local procurado para observação de aves e pesca esportiva.
A hidrografia é marcada por um conjunto de lagos e rios internos. Atrás da cidade ficam os lagos Macurany, Parananema e Aningá, com paisagens de fazendas de gado e castanhais centenários. O complexo lagunar de Macuricanã reúne cerca de quarenta lagos, formando um santuário ecológico com peixes e aves exóticas. O rio Uaicurapá cria praias fluviais durante a vazante e é palco do Festival de Verão, em setembro. Esses corpos d’água são ideais para pesca esportiva, prática comum nos lagos Macurany, Parananema, Aninga, Poção, Andirá, Uaicurapá, Zé Açu e Valéria.
Clima equatorial e ciclo das águas
O clima de Parintins é equatorial úmido (Af na classificação de Köppen), com duas estações bem definidas: a estação das chuvas (“inverno”) e a estação seca (“verão”). A temperatura média anual é 27,2 °C, com máximas em torno de 31,7 °C e mínimas de 24,3 °C.
A precipitação anual atinge 2 302 mm, com pico de chuvas em março (324 mm) e período relativamente mais seco de julho a setembro. A umidade relativa média chega a 83,5 %, e há cerca de 2 200 horas de insolação por ano. O festival folclórico ocorre em junho, justamente ao final de seis meses de chuvas intensas, quando os rios ainda estão cheios e a cidade cercada por espelhos d’água.
A dinâmica hídrica condiciona a vida cotidiana: casas sobre palafitas são comuns nas margens dos rios, e os barcos regionais servem como transporte coletivo, com redes coloridas penduradas nos “dormitórios” improvisados para os passageiros. Durante a cheia, as embarcações transportam produtos, animais e pessoas, enquanto na vazante surgem praias e oportunidades de pesca.
Biodiversidade e recursos naturais
A ilha abriga uma diversidade de espécies amazônicas. Peixes como tucunaré, aruanã e tambaqui proliferam nos lagos e rios, sustentando a pesca artesanal e esportiva. Nas matas de terra firme encontram‑se castanheiras centenárias e espécies nativas exploradas de forma sustentável, como o pau‑rosa (cujas essências são utilizadas na perfumaria internacional) e a copaíba. A fauna inclui aves aquáticas, jacarés, botos-cor-de-rosa e preguiças; muitos desses animais são avistados em expedições ecológicas pelo Lago da Valéria e pelo rio Uaicurapá.
Parintins também mantém rebanhos de bovinos e búfalos, considerados os maiores do Amazonas. A produção agropecuária se complementa com o cultivo de fibras como a juta e a malva, além da extração de castanha-do-brasil e óleos vegetais. Esses recursos naturais sustentam a economia local e inspiram narrativas do festival, reforçando a ligação entre natureza e cultura.
Economia, turismo e desenvolvimento

Situada no coração da Amazônia, Parintins construiu sua economia em torno dos recursos naturais, do comércio regional e, nas últimas décadas, do turismo cultural. A combinação desses fatores sustenta a vida na ilha e impulsiona novas oportunidades.
Setores produtivos: do campo às oficinas
A base econômica tradicional de Parintins inclui agropecuária, pesca, extrativismo e indústria de pequeno porte. A cidade é conhecida pelo grande rebanho de bois e búfalos, considerado um dos maiores do Amazonas. A agricultura familiar produz mandioca, banana, frutas regionais e fibras vegetais como juta e malva, cuja história remonta à imigração japonesa e ao ciclo da juta abordados anteriormente. A pesca artesanal e a pesca esportiva nos lagos Macurany, Parananema, Aningá e Macuricanã garantem alimento e renda para centenas de famílias. No extrativismo, destaca-se a coleta de castanha-do-brasil, a extração de óleos como o pau‑rosa (utilizado na perfumaria) e copaíba, além de madeiras nativas. A indústria local compreende pequenos estaleiros, serrarias e beneficiamento de produtos agrícolas, complementando o setor primário.
O peso da economia criativa e do festival
Nos últimos anos, a economia criativa — centrada na produção cultural — tornou-se um pilar do desenvolvimento. A pesquisa da Universidade Federal do Amazonas sobre o impacto financeiro do Festival Folclórico de Parintins (2005–2019) concluiu que o setor de serviços representa a maior fatia do PIB municipal, e que a festa exerce influência significativa.
O estudo calculou uma movimentação financeira média de R$ 31,7 milhões por ano, com variação média de 4,88 %. Dados da Amazonastur apontam que o festival movimentou R$ 19 milhões em 2016 e R$ 36,2 milhões em 2018, impulsionando o número de turistas de 23 544 (2016) para 60 000 (2018). Em 2019, a movimentação econômica chegou a R$ 50,7 milhões, indicando tendência de crescimento.
O poder de geração de emprego é confirmado pela prefeitura de Parintins: em 2025, o prefeito Mateus Assayag informou que o festival deveria atrair mais de 100 mil visitantes, gerar mais de 20 mil empregos diretos e indiretos e movimentar mais de R$ 100 milhões na economia local. Esse “ecossistema econômico” envolve costureiras, artesãos, carpinteiros, decoradores, músicos, guias turísticos, hotéis, restaurantes e barcos-hotéis que hospedam turistas na orla.
Infraestrutura e logística do turismo
Chegar a Parintins é parte da experiência. A cidade recebe voos diários de Manaus, com trajeto de 45 minutos a 1 hora, e durante o festival a frequência de voos aumenta. A maioria dos visitantes, porém, chega por via fluvial. As embarcações tradicionais levam de 14 a 18 horas descendo o rio Amazonas e retornam em 24 a 30 horas; oferecem camarotes, espaços para redes, refeições e bar. Lanchas rápidas (expressos) transportam até 90 passageiros em cerca de 8 horas. Na temporada de festival, muitos barcos ancoram na orla e funcionam como hotéis flutuantes, integrando hospedagem e passeio.
Além do Bumbódromo, a cidade dispõe de hotéis, pousadas, casas de família e acampamentos comunitários. O Mercado Municipal Leopoldo Neves (restaurado em 2019) concentra restaurantes, lanchonetes e feiras de artesanato, movimentando o turismo gastronômico. A Catedral de Nossa Senhora do Carmo e a Serra de Parintins atraem visitantes interessados em cultura e ecoturismo. Durante a estação seca, as praias do rio Uaicurapá tornam‑se cenário para o Festival de Verão, diversificando a agenda de eventos.
Desafios e oportunidades
Embora o festival impulsione a economia, Parintins enfrenta desafios relacionados à infraestrutura, sazonalidade e preservação ambiental. A maior parte da renda gerada concentra‑se nos meses de junho e julho, enquanto no restante do ano a economia depende da agropecuária, pesca e comércio regional.
A prefeitura vem diversificando o calendário turístico com eventos esportivos, religiosos e culturais ao longo do ano. Investimentos em saneamento, transporte e qualificação profissional são necessários para atender à crescente demanda de visitantes e mitigar impactos ambientais.




