A expansão da inteligência artificial pode pressionar a inflação antes que seus ganhos de produtividade reduzam custos e ampliem a capacidade de produção da economia. Isso ocorre porque a construção da infraestrutura necessária para a tecnologia avança mais rapidamente do que a oferta de energia, chips, transformadores e outros equipamentos.
A avaliação foi apresentada pelo economista Igor Barenboim, da Reach Capital, em entrevista à CNN Brasil publicada neste domingo, 19 de julho.
Segundo o economista, grandes empresas de tecnologia estão transferindo volumes elevados de capital para fabricantes de processadores, memórias, servidores e equipamentos usados na construção de centros de dados.
A demanda cresce rapidamente, mas a capacidade industrial não consegue ser ampliada na mesma velocidade. Esse desequilíbrio pode elevar os preços dos componentes e dos serviços necessários para colocar novos sistemas de inteligência artificial em operação.
Como a inteligência artificial pode pressionar os preços
| Etapa | Possível efeito econômico |
|---|---|
| Empresas anunciam grandes investimentos | A demanda por chips, servidores, energia e construção aumenta |
| A oferta não acompanha imediatamente | Surgem filas, escassez e aumento dos custos |
| Centros de dados entram em operação | O consumo de eletricidade e a necessidade de infraestrutura crescem |
| Empresas começam a adotar a tecnologia | Os ganhos de produtividade aparecem de forma desigual |
| A IA se espalha pela economia | A produção pode crescer e alguns custos podem diminuir |
A primeira fase é marcada principalmente por investimento e aumento da demanda. Empresas compram terrenos, equipamentos, sistemas de refrigeração, geradores, transformadores, processadores e contratos de fornecimento de energia.
Os benefícios mais amplos, porém, dependem da adoção da tecnologia por empresas de diferentes setores, da capacitação dos trabalhadores e da reorganização dos processos produtivos. Essa adaptação pode levar anos.
Investimentos já superam centenas de bilhões de dólares
A Agência Internacional de Energia informou que os investimentos de cinco grandes empresas de tecnologia ultrapassaram US$ 400 bilhões em 2025. Para 2026, a previsão é de um crescimento adicional de 75%.
O Fundo Monetário Internacional também registra que a inteligência artificial passou a representar uma parcela importante do crescimento dos investimentos nos Estados Unidos, especialmente em servidores, programas, redes elétricas e centros de dados.
Uma estimativa mencionada pelo FMI indica que os centros de dados poderão exigir US$ 6,7 trilhões em investimentos acumulados até 2030 para atender à demanda mundial.
Esse volume não representa apenas a compra de computadores. Ele inclui terrenos, edifícios, linhas de transmissão, usinas, sistemas de refrigeração e equipamentos capazes de manter os serviços funcionando continuamente.
Energia é um dos principais gargalos
Não existe inteligência artificial em grande escala sem eletricidade. Os modelos são treinados e executados em servidores instalados em centros de dados que funcionam durante as 24 horas do dia.
A Agência Internacional de Energia calcula que o consumo mundial de eletricidade dos centros de dados deverá subir de aproximadamente 415 terawatts-hora em 2024 para cerca de 945 terawatts-hora em 2030.
Isso representa mais que o dobro do consumo atual. A previsão considera centros de dados tradicionais e estruturas voltadas à inteligência artificial.
Os servidores acelerados, utilizados principalmente em sistemas de IA, deverão registrar crescimento anual de aproximadamente 30% no consumo de eletricidade até o fim da década.
O problema não está apenas na quantidade total de energia. Os centros de dados costumam ser concentrados em regiões específicas e precisam de grande capacidade elétrica em pouco tempo.
Uma rede local pode precisar receber novas linhas, subestações, transformadores e unidades de geração. Esses projetos normalmente levam mais tempo para ser planejados e construídos do que o próprio centro de dados.
Chips e equipamentos também enfrentam limitações
A expansão depende de processadores avançados, memórias de alta velocidade, equipamentos de rede e componentes elétricos que são fabricados por um número limitado de empresas.
Igor Barenboim citou fabricantes como Nvidia, SK Hynix e Micron entre os principais beneficiários da corrida por infraestrutura. Ao comentar os custos desses componentes, afirmou que “a inflação é bastante alta nesses setores”.
O Banco de Compensações Internacionais, o BIS, também identifica gargalos em semicondutores avançados, equipamentos de rede elétrica e fornecimento de energia.
Quando várias empresas tentam garantir antecipadamente a mesma capacidade industrial, os fornecedores podem elevar preços e exigir contratos de longo prazo. Isso reforça o movimento inflacionário nos segmentos mais ligados à tecnologia.
Por que a produtividade demora a aparecer?
A compra de um sistema de inteligência artificial não produz automaticamente ganhos em toda a empresa. É necessário integrar a ferramenta aos programas existentes, reorganizar tarefas, treinar funcionários e corrigir erros.
Algumas atividades, como programação, atendimento ao cliente e produção de textos padronizados, podem registrar ganhos rápidos. Em outros setores, a adoção é mais lenta por causa de normas, riscos de segurança, falta de dados ou necessidade de supervisão humana.
O BIS afirma que estudos de tarefas específicas encontram economias de tempo entre 20% e 50%. As estimativas para o aumento da produtividade de toda a economia, no entanto, são menores e geralmente ficam abaixo de 1% ao longo de períodos mais extensos.
A diferença ocorre porque um bom resultado em uma tarefa isolada não significa que todas as empresas conseguirão adotar a tecnologia na mesma velocidade ou com a mesma eficiência.
A inteligência artificial também pode reduzir a inflação
O efeito não será necessariamente inflacionário para sempre. Quando a tecnologia aumenta a quantidade de bens e serviços que uma empresa consegue produzir com os mesmos recursos, a oferta cresce.
Uma oferta maior pode reduzir custos, aumentar a concorrência e limitar reajustes de preços. Sistemas de IA também podem melhorar rotas de transporte, prever falhas, reduzir desperdícios e tornar o consumo de energia mais eficiente.
Um estudo do BIS concluiu que o impacto final sobre a inflação é incerto porque existem duas forças em direções opostas:
- o investimento elevado aumenta a demanda e pode pressionar os preços;
- o ganho de produtividade aumenta a oferta e pode reduzir a inflação.
O resultado dependerá do momento em que cada efeito aparecer. Caso os investimentos avancem rapidamente e os ganhos de produtividade demorem, a pressão inflacionária tende a vir primeiro.
O desafio para os bancos centrais
Os bancos centrais controlam a inflação principalmente por meio das taxas de juros. O problema é que a expansão da IA pode aquecer fortemente determinados setores enquanto outras áreas da economia permanecem fracas.
Juros mais altos podem reduzir o investimento e o consumo em toda a economia, inclusive nos setores que não participam diretamente do avanço tecnológico.
Philip Jefferson, integrante do Conselho do Federal Reserve, afirmou em fevereiro que o investimento relacionado à IA pode elevar temporariamente a inflação antes que as mudanças mais profundas na produtividade sejam percebidas.
A dirigente do Federal Reserve Lisa Cook também observou que os investimentos em chips e centros de dados permanecem elevados mesmo com taxas de juros superiores às registradas durante grande parte das últimas duas décadas.
Pressão ainda não significa inflação generalizada
O aumento dos preços de processadores, energia ou equipamentos elétricos não significa que todos os produtos vendidos ao consumidor ficarão mais caros imediatamente.
No primeiro momento, a pressão tende a ficar concentrada nas cadeias diretamente envolvidas com centros de dados e infraestrutura tecnológica. A transmissão para a inflação geral depende do tamanho dos investimentos, da capacidade das redes elétricas e da forma como as empresas repassam os custos.
A própria Agência Internacional de Energia afirma que o crescimento dos centros de dados não precisa necessariamente aumentar a conta de eletricidade. Políticas adequadas, novos investimentos e contratos que obriguem os grandes consumidores a pagar pela infraestrutura podem limitar os efeitos sobre os demais usuários.
Vídeo relacionado
A Agência Internacional de Energia publicou um vídeo explicando quanto os sistemas de inteligência artificial consomem e por que os centros de dados exigem tanta eletricidade:
Assistir ao vídeo da Agência Internacional de Energia no YouTube
A inteligência artificial ainda pode produzir ganhos significativos para a economia mundial. Antes disso, porém, a corrida por infraestrutura poderá elevar custos em setores onde a capacidade de produção e fornecimento não acompanha o crescimento da demanda.


