A dragagem da Alcoa no Rio Amazonas, em Juruti, no oeste do Pará, virou uma disputa entre comunidades ribeirinhas, a empresa, a Semas e o Ministério Público Federal. De um lado, moradores e lideranças cobram estudos ambientais mais completos; de outro, a companhia afirma que a operação é licenciada, monitorada e voltada à manutenção da navegabilidade.
O conflito envolve uma área sensível para pesca, transporte, agricultura de várzea e abastecimento de famílias que vivem às margens do Rio Amazonas. A atividade é ligada ao acesso ao terminal portuário usado pela Alcoa para escoamento de bauxita no município.
O caso ganhou força depois que o Ministério Público Federal no Pará recomendou a anulação de licenças ambientais e a suspensão de novas dragagens sem estudos considerados adequados.
Quem acusa e qual é o centro da disputa?

Segundo o MPF, a intervenção teria sido tratada no licenciamento como dragagem de manutenção, mas, na prática, teria aprofundado e alargado o canal de acesso ao terminal da empresa. Para o órgão, essa diferença mudaria o tamanho do impacto e exigiria estudos mais robustos, como EIA/Rima.
O MPF também aponta relatos de comunidades sobre assoreamento de lagos e igarapés, piora na qualidade da água, prejuízo à pesca artesanal e dificuldade de transporte. O órgão cita comunidades como Santa Rita, Vera Cruz, Santa Luzia, Santa Rosa, Araçá Branco, Bom Jesus e a Colônia de Pescadores Z-42.
A preocupação das famílias é direta. O rio é estrada, alimento, renda e abastecimento. Quando a água muda, a pesca cai ou igarapés ficam bloqueados, o impacto aparece na rotina de quem depende do Amazonas para viver.
Quais números aparecem na recomendação do MPF?
| Ponto citado | Informação do MPF |
|---|---|
| Volume dragado em 2023 | Cerca de 867 mil m³ de sedimentos. |
| Volume dragado em 2024 | Mais de 2,4 milhões de m³. |
| Autorização para 2025 | Até 7 milhões de m³, segundo o MPF. |
| Principal crítica | Licenciamento simplificado para intervenção considerada maior pelo órgão. |
O MPF afirma ainda que o material retirado foi despejado sucessivamente em uma mesma área do rio, o chamado bota-fora, sem avaliação adequada dos impactos cumulativos. Em uma região já pressionada por estiagens e mudanças no regime dos rios, o tema se conecta ao debate mais amplo sobre alerta climático na Amazônia.
O que diz a Alcoa?
A Alcoa nega irregularidade. Em resposta publicada pela IstoÉ Dinheiro, com Estadão Conteúdo, a empresa afirmou que a dragagem é uma atividade de manutenção destinada exclusivamente ao desassoreamento e à preservação das condições naturais de navegabilidade do rio.
A companhia também disse que a operação mantém a geometria da calha e remove sedimentos acumulados no canal, processo que considera recorrente em rios amazônicos. Segundo a empresa, estudos técnicos foram apresentados aos órgãos competentes e os monitoramentos ambientais antes, durante e depois da dragagem não indicaram alteração nos parâmetros definidos pela legislação.
O que diz a Prefeitura de Juruti?
A discussão não começou agora. Em 2023, a Prefeitura de Juruti registrou reunião pública sobre o projeto de dragagem no Rio Amazonas, com presença de órgãos públicos, sociedade civil e comunitários.
Na ocasião, foram discutidas medidas como fornecimento de água, indenização temporária para pescadores, transporte para comunidades e equipe técnica pós-dragagem para analisar o fluxo do rio. Esse histórico mostra que a dragagem já era acompanhada por comunidades e autoridades antes da recomendação mais recente do MPF.
Por que o caso importa para ribeirinhos?
Para comunidades ribeirinhas, a disputa não é apenas técnica. Alterações no leito do rio podem afetar navegação local, acesso a escolas, chegada de alimentos, água para consumo, pesca, agricultura de várzea e circulação entre comunidades.
Também há um ponto de confiança. Moradores cobram dados claros antes, durante e depois da intervenção para comparar o que mudou. Sem esse acompanhamento, fica mais difícil separar efeito natural do rio, impacto da estiagem e possível consequência da dragagem.
O debate toca uma pergunta maior sobre a natureza amazônica: como conciliar logística mineral, licenciamento ambiental e proteção de populações que dependem diretamente dos rios?
O que pode acontecer agora?
O MPF recomendou que a Semas anule as autorizações e passe a exigir licenciamento mais rigoroso para novas dragagens. À Alcoa, o órgão recomendou que não inicie novo ciclo sem estudos ambientais completos e adequação às condições naturais do Rio Amazonas.
A empresa sustenta que atua dentro das licenças e que a atividade é monitorada. A disputa, portanto, deve seguir em torno de três pontos: a natureza real da dragagem, a suficiência dos estudos ambientais e a participação das comunidades afetadas.
Enquanto não houver resposta definitiva, o caso segue como um dos conflitos ambientais mais sensíveis de Juruti: de um lado, a necessidade de navegação e logística da mineração; de outro, a proteção do rio que sustenta a vida cotidiana das famílias ribeirinhas.


