O que é um ciclone subtropical e por que ele é diferente dos outros ciclones?

16 min de leitura

Um ciclone subtropical é um sistema de baixa pressão que reúne características de ciclones tropicais e extratropicais. Ele apresenta circulação fechada em superfície, pode desenvolver tempestades organizadas sobre águas subtropicais e, ao mesmo tempo, obter parte importante de sua energia de processos associados a diferenças de temperatura na atmosfera.

O conceito é técnico e não depende apenas da localização geográfica. O National Hurricane Center define o ciclone subtropical como um sistema não frontal com características tropicais e extratropicais, normalmente associado a convecção organizada, núcleo frio nas camadas superiores e ventos máximos mais afastados do centro do que em ciclones tropicais.

Por que o ciclone subtropical é considerado um sistema híbrido?

1280px Ecai 2016 12 05 1655Z 1
Tempestade subtropical Eçaí na costa do Sudeste do Brasil.
Fonte: NASA’s Aqua satellite – EOSDIS Worldview

Os três grandes tipos de ciclone diferem principalmente pela estrutura térmica e pela fonte de energia. Ciclones tropicais maduros possuem núcleo quente e são sustentados principalmente pelo calor transferido do oceano e pela liberação de energia durante a condensação. Ciclones extratropicais dependem sobretudo dos contrastes horizontais de temperatura entre massas de ar.

O subtropical reúne elementos desses dois mundos. Uma climatologia publicada no Journal of Climate por Jenni Evans e Aviva Braun descreve esses sistemas como estruturas híbridas, com núcleo quente nas camadas inferiores e núcleo frio em níveis superiores.

CaracterísticaCiclone tropicalCiclone subtropicalCiclone extratropical
Fonte principal de energiaCalor oceânico e convecçãoCombinação de processos tropicais e baroclínicosContrastes entre massas de ar
Estrutura térmica típicaNúcleo quente profundoHíbridaFrequentemente núcleo frio
Frentes associadasAusentes na fase tropicalAusentes quando plenamente subtropicalComuns
Ventos máximosPodem se concentrar perto do centroFrequentemente ficam mais afastadosCampo amplo e geralmente assimétrico
Região de ocorrênciaOceanos tropicais e subtropicaisPrincipalmente águas subtropicaisPredomínio nas latitudes médias

Essas características são tendências, não fronteiras absolutas. Um ciclone pode mudar de estrutura durante seu ciclo de vida, motivo pelo qual meteorologistas analisam sua evolução continuamente.

Como um ciclone subtropical se forma?

Um dos caminhos possíveis começa com uma baixa pressão ou circulação fria em altitude posicionada sobre águas relativamente mais quentes. O contraste vertical de temperatura aumenta a instabilidade, enquanto umidade disponível favorece a formação de nuvens profundas e movimentos ascendentes.

Maystormvapor 1
Um loop de vapor d’água mostrando a formação da tempestade subtropical Andrea em maio de 2007. Fonte: NOAA 

Pesquisadores brasileiros analisaram esse mecanismo em uma climatologia de ciclones subtropicais no sudoeste do Atlântico Sul. O estudo de Gozzo, da Rocha, Reboita e Sugahara encontrou participação de baixas frias ou cavados em níveis médios, transporte de ar quente e úmido e padrões de circulação capazes de favorecer movimentos ascendentes e convecção.

O sistema pode inicialmente apresentar características extratropicais e, posteriormente, perder suas frentes enquanto a convecção se organiza ao redor da baixa. Também pode surgir diretamente com uma estrutura híbrida, dependendo das condições atmosféricas presentes.

Por que os ventos podem ficar afastados do centro?

ciclone visto do espaco
Imagem da formação de um ciclone vista do espaço Foto: mikolajn / iStock

Ciclones subtropicais geralmente apresentam um campo de vento maior e menos simétrico do que ciclones tropicais compactos. O NHC registra que o raio do vento máximo nesses sistemas costuma ficar relativamente distante do centro, frequentemente além de 60 milhas náuticas.

Isso significa que a posição da menor pressão não indica sozinha onde ocorrerão as rajadas mais intensas. Vento forte e ondas elevadas podem aparecer a dezenas ou centenas de quilômetros da circulação central.

Essa característica tem importância especial para a navegação. O Serviço Meteorológico Marinho monitora vento, pressão, ondas e ciclones subtropicais e tropicais na METAREA V, área oceânica sob responsabilidade meteorológica brasileira.

Ciclone subtropical possui olho?

Não necessariamente. O olho bem definido é uma estrutura típica de alguns ciclones tropicais intensos e maduros. Sistemas subtropicais costumam apresentar convecção menos simétrica e uma organização interna diferente.

Segundo a definição operacional do NHC, ciclones subtropicais geralmente não apresentam a cobertura densa de nuvens concentrada sobre o centro característica de muitos sistemas tropicais maduros.

Por isso, uma abertura em imagens de satélite não deve ser chamada automaticamente de olho. A classificação exige informações sobre vento, pressão, convecção, estrutura térmica e circulação em diferentes níveis da atmosfera.

Ciclones subtropicais fazem parte do clima do Atlântico Sul?

Sim. Eles não são apenas eventos excepcionais observados depois do Furacão Catarina.

Evans e Braun identificaram 63 ciclones subtropicais entre agosto de 1957 e dezembro de 2007 na faixa de 20°S a 40°S do Atlântico Sul. O estudo mostrou que esses sistemas ocorreram ao longo de todo o ano, embora os locais e mecanismos de formação apresentassem variação sazonal.

Uma segunda pesquisa, baseada em reanálises do período de 1979 a 2011, encontrou maior ocorrência de ciclones subtropicais durante o verão austral, enquanto o ambiente de outono apresentou condições mais próximas das encontradas em ciclones tropicais, incluindo maior fluxo de calor da superfície e menor cisalhamento vertical.

Os resultados não devem ser tratados como contraditórios. As pesquisas utilizaram períodos, conjuntos de dados e métodos de identificação diferentes. Isso mostra por que números climatológicos precisam ser acompanhados da metodologia que os produziu.

Quem classifica e monitora esses ciclones no Brasil?

A responsabilidade operacional sobre a área marítima brasileira cabe ao Serviço Meteorológico Marinho do Centro de Hidrografia da Marinha. O órgão acompanha sistemas de natureza subtropical e tropical, produz cartas sinóticas, avisos especiais e relatórios pós-evento.

A base oficial de ciclones da Marinha do Brasil mantém relatórios individuais, trajetórias e cartas sinóticas de sistemas monitorados na METAREA V desde 2011. O acervo inclui Arani, Bapo, Cari, Iba, Kurumí, Potira, Raoni, Yakecan, Akará e Biguá, entre outros.

Em trabalho publicado nos Anais Hidrográficos, pesquisadores do CHM reconstruíram 22 anos de monitoramento de ciclones na área marítima brasileira, mostrando a evolução das práticas adotadas depois de Catarina e a consolidação de protocolos específicos para sistemas subtropicais e tropicais.

Quando uma depressão subtropical vira tempestade?

A intensidade dos ventos também participa da classificação. Em nota oficial elaborada em conjunto por Marinha, INMET, INPE e CIMAER, os órgãos explicaram que um sistema poderia ser classificado como tempestade subtropical quando fossem observados ventos superiores a 34 nós, cerca de 63 km/h, conforme a norma brasileira utilizada naquele episódio.

O nome próprio facilita a comunicação sobre o mesmo fenômeno em avisos e atualizações. A nomeação não significa que o ciclone virou furacão nem que provocará necessariamente impactos severos em terra.

Yakecan mostrou que um sistema subtropical pode afetar o continente

Em maio de 2022, Yakecan se desenvolveu próximo ao Sul do Brasil. Antes da formação, INMET e Marinha alertaram que a Tempestade Subtropical Yakecan poderia produzir rajadas superiores a 100 km/h na costa do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

Depois do evento, o INMET confirmou rajadas muito fortes nos dois estados e relacionou a circulação do sistema à intensificação de uma massa de ar frio sobre o continente.

O caso demonstra que a palavra “subtropical” não significa fraco. A intensidade e os impactos precisam ser avaliados a partir das observações e avisos de cada evento.

Akará é um exemplo de transição entre subtropical e tropical

Akará, em fevereiro de 2024, permite observar como a natureza de um ciclone pode mudar.

O relatório pós-evento elaborado pelo Centro de Hidrografia da Marinha mostra que o sistema começou como depressão subtropical, com núcleo quente restrito às camadas inferiores da troposfera.

Entre os dias 17 e 18 de fevereiro, a baixa adquiriu maior barotropia e o núcleo quente passou a se estender por níveis mais altos da atmosfera. Segundo a análise da Marinha, essa configuração caracterizou a transição para depressão tropical. Depois, os ventos atingiram força suficiente para que o sistema fosse classificado como Tempestade Tropical Akará.

A observação por satélite confirmou a organização do sistema. A NOAA acompanhou Akará pelo satélite GOES East e registrou seu fortalecimento sobre o Atlântico Sul em fevereiro de 2024.

Posteriormente, Akará perdeu intensidade e voltou à condição de depressão subtropical. O episódio mostra que tropical, subtropical e extratropical são classificações estruturais que podem mudar ao longo do ciclo de vida.

O Brasil teve outro caso em 2026

Sim. Em 2 de março de 2026, a Marinha anunciou a formação da Tempestade Subtropical Caiobá em alto-mar, cerca de 1.250 quilômetros a sudeste de Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro.

Na nota conjunta com INMET, CIMAER e CPTEC/INPE, a Marinha estimou ventos sustentados de 40 nós, cerca de 75 km/h, rajadas de até 46 nós, aproximadamente 85 km/h, e ondas entre 3 e 5 metros no entorno do ciclone. O boletim também informou que não havia previsão de influência da tempestade sobre o litoral brasileiro.

Esse exemplo é importante porque mostra que um ciclone pode alcançar a categoria de tempestade e produzir condições marítimas relevantes sem necessariamente causar impactos diretos em cidades costeiras.

Um ciclone subtropical pode virar tropical?

Sim, mas isso depende de mudanças reais na estrutura do sistema. Estudos científicos mostram que ciclones subtropicais podem atuar como estágios intermediários em processos de transição tropical, especialmente quando passam a desenvolver estrutura de núcleo quente mais profunda e convecção organizada.

A climatologia de Evans e Braun observa que ciclones subtropicais podem evoluir para ciclones tropicais, processo já documentado em diferentes bacias. No Atlântico Sul, Akará forneceu um exemplo operacional recente dessa mudança.

Isso não significa que todo subtropical esteja a caminho de virar tempestade tropical. Muitos permanecem híbridos até enfraquecer ou evoluem novamente para características extratropicais.

Quais riscos um ciclone subtropical pode provocar?

Os efeitos dependem da trajetória, intensidade, tamanho e distância da costa. Entre os riscos possíveis estão:

  • vento forte: capaz de afetar árvores, estruturas e redes elétricas;
  • ondas elevadas: relevantes para pesca, navegação e operações marítimas;
  • ressaca: quando a circulação gera ondas que alcançam a costa;
  • chuva intensa: quando há grande disponibilidade de umidade e interação com outros sistemas;
  • restrições marítimas: devido à combinação de vento, ondas e baixa visibilidade.

A Marinha ressalta que ciclones subtropicais e tropicais podem ter grande importância para atividades marítimas e costeiras por causa da intensidade dos ventos e da altura das ondas. Por isso, o monitoramento inclui não apenas a posição do centro, mas também trajetória, vento e estado do mar.

Como saber se uma notícia classificou o sistema corretamente?

Primeiro, procure o órgão responsável pela classificação. No Atlântico Sul sob responsabilidade brasileira, a referência operacional é o Serviço Meteorológico Marinho, geralmente em colaboração com INMET, CPTEC/INPE e CIMAER.

Depois, observe a data. Um ciclone pode ser subtropical pela manhã e mudar de natureza posteriormente. Notícias antigas podem manter uma classificação que já foi atualizada.

Por fim, não confie apenas na aparência de imagens. Espirais de nuvens também aparecem em ciclones extratropicais. A determinação depende do perfil térmico, do vento, da convecção, das frentes e da circulação em diferentes níveis.

O que é essencial lembrar?

Ciclone subtropical é uma classificação meteorológica própria, não apenas um nome usado para ciclones localizados perto dos trópicos.

Esses sistemas apresentam características híbridas, fazem parte da climatologia do Atlântico Sul e são monitorados oficialmente no Brasil pela Marinha. Casos como Yakecan, Akará e Caiobá mostram que a evolução pode variar: alguns afetam áreas costeiras, outros permanecem em alto-mar e alguns passam por mudanças de classificação.

A melhor forma de entender cada episódio é acompanhar fontes oficiais e observar estrutura, intensidade, trajetória e área de influência, em vez de deduzir o perigo apenas pelo nome do fenômeno.

lite.

Perguntas frequentes (FAQ) 

Ciclone subtropical é mais fraco que ciclone tropical?

Não necessariamente. Subtropical descreve a estrutura e a fonte de energia do sistema, não uma escala automática de perigo.

Ciclone subtropical pode virar furacão?

Pode passar por transição tropical e, depois, intensificar-se. Para ser considerado furacão, precisa adquirir estrutura tropical e atingir o limite de vento correspondente.

Todo ciclone subtropical recebe nome no Brasil?

Não. A nomenclatura depende da classificação e da intensidade determinadas pelo Serviço Meteorológico Marinho.

Ciclone subtropical possui frente fria?

Na fase subtropical organizada, o sistema é considerado não frontal. Entretanto, pode ter se originado de uma estrutura anteriormente ligada a frentes.

Ciclones subtropicais são raros no Atlântico Sul?

Eles são menos conhecidos pelo público do que ciclones extratropicais, mas estudos climatológicos demonstram que fazem parte da dinâmica do Atlântico Sul.

Um ciclone subtropical pode causar ondas altas sem atingir a costa?

Sim. O campo de ventos sobre o oceano pode gerar ondas importantes mesmo quando o centro permanece distante do continente.

Compartilhar este artigo
O Redator PodcastParintins produz notícias e conteúdos sobre Parintins, Amazonas, Brasil e o mundo, com compromisso com informação clara e responsável.
Nenhum comentário