Bloco europeu retirou o Brasil da lista de países autorizados a vender carnes e outros produtos de origem animal; governo tenta reverter a decisão antes de setembro.
A decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e outros produtos de origem animal pode afetar quase US$ 2 bilhões por ano em vendas brasileiras ao bloco. A medida foi oficializada na sexta-feira (5) e tem previsão de entrada em vigor em 3 de setembro de 2026.
O veto está relacionado às novas exigências europeias sobre o uso de antimicrobianos na produção animal. Segundo a União Europeia, o Brasil não apresentou garantias suficientes de que as cadeias exportadoras cumprem integralmente as regras do bloco, especialmente em relação à não utilização de medicamentos antimicrobianos como promotores de crescimento ou aumento de rendimento dos animais.
Na prática, se a decisão não for revertida, o Brasil deixará de vender ao mercado europeu produtos como carne bovina, carne de aves, carne equina, pescados de aquicultura, mel e tripas. Em 2024, o país ainda aparecia como autorizado para essas categorias. Agora, foi retirado da lista.
Impacto nas exportações
A União Europeia é um dos mercados mais importantes para as carnes brasileiras em valor. Segundo dados do Agrostat, sistema do Ministério da Agricultura, o bloco responde por 5,7% do valor exportado pelo Brasil no setor de carnes em geral, ficando atrás apenas da China.
Em 2025, os países europeus compraram 368,1 mil toneladas de produtos brasileiros, em negócios que somaram US$ 1,8 bilhão.
A carne bovina é o principal item dessa relação comercial. No ano passado, o Brasil exportou 128 mil toneladas do produto para a União Europeia, com receita de US$ 1,048 bilhão. O bloco aparece como o terceiro maior destino da carne bovina brasileira, atrás de China e Estados Unidos.
A carne de frango também tem peso relevante. Em 2025, as vendas brasileiras desse produto para a União Europeia chegaram a US$ 762 milhões, com volume de 230 mil toneladas. Outros produtos, como o mel, também entram na lista dos itens que podem ser afetados. No ano passado, as exportações brasileiras de mel ao bloco somaram cerca de US$ 6 milhões.
Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal, o Brasil não exporta carne suína para a União Europeia.
Por que o Brasil ficou fora da lista
O centro da disputa não é a identificação de um problema sanitário específico em lotes de carne brasileira, mas a capacidade do país de comprovar fiscalização, rastreabilidade e controle sobre o uso de antimicrobianos nas cadeias produtivas.
A União Europeia restringiu nos últimos anos o uso de antimicrobianos para fins não terapêuticos, principalmente quando utilizados para estimular o crescimento dos animais. O bloco exige que países exportadores demonstrem que os produtos enviados ao mercado europeu seguem essas regras durante todo o ciclo produtivo.
Entre as substâncias citadas em discussões sobre o tema estão virginiamicina, avoparcina, bacitracina, tilosina, espiramicina e avilamicina. Parte desses antimicrobianos já foi alvo de restrição no Brasil.
Em abril, o Ministério da Agricultura publicou uma portaria proibindo a importação, fabricação, comercialização e uso de aditivos melhoradores de desempenho que contenham antimicrobianos classificados como importantes para a medicina humana ou veterinária. A lista inclui avoparcina, bacitracina, bacitracina de zinco, bacitracina metileno disalicilato e virginiamicina.
Governo tenta reverter decisão
O governo brasileiro intensificou as conversas com autoridades europeias para tentar reverter o veto, ao menos parcialmente, antes da entrada em vigor da restrição. O Ministério das Relações Exteriores e o Ministério da Agricultura devem atuar para apresentar novas garantias técnicas sobre o sistema de controle sanitário brasileiro.
Para voltar à lista de países autorizados, o Brasil pode seguir dois caminhos principais: ampliar as restrições legais ao uso de determinadas substâncias ou comprovar, por meio de rastreabilidade e certificação, que os produtos exportados à União Europeia não envolvem o uso dos antimicrobianos proibidos pelas regras europeias.
A segunda alternativa é considerada mais complexa, porque exige controle detalhado da cadeia produtiva, desde a criação dos animais até o envio dos produtos ao exterior. Isso pode elevar custos para produtores, frigoríficos e exportadores.
Mercosul segue autorizado
A exclusão do Brasil chama atenção porque outros países do Mercosul, como Argentina, Paraguai e Uruguai, continuam autorizados a exportar para a União Europeia. A diferença aumenta a pressão sobre o governo brasileiro e sobre o setor produtivo, que tentam evitar perda de mercado em uma das regiões de maior valor agregado para as carnes nacionais.
Caso a restrição entre em vigor sem acordo, o impacto será sentido principalmente nas empresas exportadoras e nas cadeias ligadas à proteína animal. Ainda não há uma estimativa oficial sobre possíveis reflexos nos preços internos, mas o redirecionamento de produtos para outros mercados pode alterar a dinâmica comercial do setor.
Até setembro, o ponto decisivo será a capacidade do Brasil de convencer a União Europeia de que possui mecanismos suficientes de fiscalização, rastreabilidade e conformidade sanitária. Se as garantias forem aceitas, o país poderá ser reincluído na lista e manter o acesso ao mercado europeu.


